RIMBAUD OU A REVOLTA DA BELEZA

Por Adonay Moreira

Henri_Fantin-Latour_005.jpgÀ volta da mesa, por Henri Fantin-Latour, 1872, Rimbaud é o segundo à esquerda, tendo ao seu lado direito Paul Verlaine. 

Poucos artistas profetizaram com tanta exatidão o seu destino quanto o francês Arthur Rimbaud. Poeta decadente, maldito pela poesia que praticava e eterno incompreendido, o jovem prodígio de Charleville inaugurou na alma às vezes indiferente da poesia moderna um novo tipo: o eterno jovem revoltado.

Há abismos nos quais o espírito humano não pode penetrar sem a ajuda da arte, e talvez nenhum outro poeta moderno soube nos colocar em contato tão direto com tais profundezas como o fez o angustiado autor de “Une Saison en Enfer” e das “Les Illuminations”.

O destino de Rimbaud é, à primeira vista, algo improvável, mas é uma dessas improbabilidades tão comuns em literatura. Sua inteligência é algo tão avassalador que não nos parece um escândalo imaginar que de fato não poderia se estender por muito tempo. Era como uma chama prodigiosa e inquieta, uma violenta tempestade que abala o coração de quem com ela ouse entra em contato, porém uma tempestade passageira, que deixa em nosso espírito a sensação de alegria e de espanto.

Os franceses sempre foram mestres em matéria de poesia. De François Villon a Paul Valéry, de Pierre de Ronsard a Yves Bonnefoy, a sua contribuição marca um dos pontos mais altos da poética ocidental. Mas até mesmo nessa terra de gênios a obra de Rimbaud é uma exceção.

É difícil prever os mecanismos que governam o espírito de um artista e o levam a criar uma obra que o erga tão acima do tedioso mundo banal das outras criaturas. Qualquer resposta a isso é sempre amadorística e provisória, e nem de longe pode esgotar todo o problema. Que a arte é uma necessidade espiritual humana, isso é inegável. Entanto, explicar as forças que atuam sobre qualquer criação é simplesmente impossível. Esse impulso que faz de um simples homem o canal para o que há de mais sublime sobre a face da terra; esse eterno silêncio que tanto procura se comunicar aos nossos sentidos e à nossa inteligência através de formas, sons, gestos e palavras; essa força descomunal que vê imagens nas pedras e que, a um toque, acorda os mortos das sepulturas é, por sua própria condição, um verdadeiro milagre.

A realidade é demasiado comum para que se possa supor que dela venha a nascer alguma coisa de tão extraordinário. Mas é justamente esse solo aparentemente infértil e ordinário que gera os grandes artistas. E, no caso de Rimbaud, não é diferente. Charleville, àquela época, não era menos tediosa do que as outras cidades do norte da França. Mas os gênios estão sempre acima de seu tempo e de seu espaço, ainda que habitem comodamente neles.

E, em matéria de cidades tediosas, a história da literatura ocidental é um prato cheio. Basta que nos lembremos dos domingos ociosos vividos pelo Quixote em La Mancha, a não menos insossa Praga de Kafka, a Orã de Albert Camus e, entre nós, a Itabira de Carlos Drummond de Andrade, com suas casas entre bananeiras, suas mulheres entre laranjeiras e seus burros que marcham devagar. Em ambientes assim, não nos espanta que o tédio seja o único fruto a ser colhido. Entretanto, o espírito sempre está acima desses inconvenientes. E o de Rimbaud sempre esteve.

Alma indomável, desde menino sentia a sarça ardente da poesia queimar seu inquieto e revoltado coração. Ainda que o romantismo inglês tenha gerado um poeta da envergadura de um John Keats, cuja genialidade também se expressou em sua juventude e está imortalizada em versos como os do famoso poema “A Bela Dama sem Piedade”, o caso é que somente em Rimbaud se concentraram as forças necessárias para fazer dele o símbolo de uma nova época. Já Henry Miller tinha notado que o tipo Rimbaud eliminaria no futuro o tipo Hamlet e o tipo Fausto, e o romancista norte-americano não poderia ter sido mais feliz em sua profecia. As hesitações de Hamlet e seu excesso de pudor não são mais praticáveis em nossa época tão ávida de ação. Muito menos há atualmente espaço para as ambições monstruosas do Fausto de Goethe. O homem de nosso tempo continua ainda bem medíocre e ambicioso, é verdade, porém é menos pretensioso em suas ambições. Se Fausto desejava o universo, o homem de nosso tempo ambiciona apenas um parco emprego público, e é nele que erguerá a sua eternidade. O universo não lhe chama mais assim tanta atenção, e ele está pouco ou nada disposto a perder sua alminha em nome dessa aventura. E há mesmo aqueles que estão plenamente convictos da inexistência dela.

Seja como for, o caso é que Rimbaud sintetizou em sua vida e em seus versos toda a inquietude juvenil que mais tarde abalará a Europa. O império da juventude que tanto domina o nosso tempo encontra nele seu expoente mais poderoso. Verdade que esse foi um fenômeno que se espalhou por toda a Europa, e, em suas memórias, Stefan Zweig também relata como aos poucos foi surgindo na velha Viena de Carpeaux e de Freud a ditadura dos jovens. Mas nenhum outro artista conseguiu voar tão alto em tão tenra idade como a virgem louca de Verlaine.

Seus poemas são como um grito do espírito, a música de seus versos parece conter dentro de si o próprio fogo. Como todo incompreendido, Rimbaud começou a se rebelar contra o mundo e acabou atingindo apenas a si mesmo. Foi seu próprio assassino, mas deixou registrado em belos e poderosos versos todos os passos desse assassinato. Assim como o estrangeiro descrito por Baudelaire, Rimbaud foi um solitário, um sonhador solitário que assombrou com sua beleza e sua poesia os homens de seu tempo. Entretanto, esse jovem gênio ignorado carregava em seu peito todo o amor do mundo. É o que ele nos diz no pequeno poema “Sensação”, escrito aos 16 anos de idade, em 1870:

 

Par les soirs bleus d’été, j’irai dans les sentiers,

Picoté par les blés, fouler l’herbe menue:

Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds.

Je laisserai le vent baigner ma tête nue.

 

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien:

Mais l’amour infini me montera dans l’âme,

Et j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,

Par la Nature, – heureux comme avec une femme[1].

 

Foi esse mesmo jovenzinho solitário quem tão bem observou seu tempo e escarneceu dos homens de sua época, tão medíocres como dos de todas as épocas, porém mais afetados, mais pomposos e convictos de suas verdades. Não é sem certo riso amargo nos lábios e uma certa vergonha na alma que lemos, no poema “À Música”, sua descrição das cenas passadas na pequena praça de Charleville, a mesma praça na qual seu pai, Frédéric Rimbaud, veio a conhecer sua mãe, Vitalie Cuif. O trecho que segue é terrivelmente tosco, mas igualmente verdadeiro e sincero. Diz o poeta:

 

Le long des gazons verts ricanent les voyous;

Et, rendus amoureux par le chant des trombones,

Très naïfs, et fumant des roses, les pioupious

Caressent les bébés pour enjôler les bonnes…

 

(Pelas aleias riem-se os malandrins e as putas;

Põe o som do trombone os corações em chamas,

E, fumando uma ‘rosa’, ingênuos, os recrutas

Vão bulir com os bebês para embair as amas…)

 

Parece espantoso que um ambiente assim possa ter gerado um grande poeta como ele. Porém essa é a grande força dos gênios: eles nascem apesar de tudo. Tentar compreendê-los por esse prisma não nos levará a lugar algum, a não ser àquele insalubre terreno das análises sociais da obra de arte, as quais tentam de todas as formas nos convencer que entre a quantia que Dostoiévski possuía em seu bolso e “Os Irmãos Karamazov” há alguma relação profunda, profundíssima. E são análises assim que fazem a alegria da intelligentsia de nossa época.

Rimbaud, como todos os grandes homens, estava acima dos modismos e dos discursos políticos da hora. Sua revolta era antes de tudo metafísica. Como Edgar Allan Poe, tinha consciência do mal, mas não possuía as armas necessárias para combatê-lo. Diante de sua impotência, fez-se ele mesmo arma contra o mundo; vagou, como Dante, pelos infernos, mas, ao contrário do poeta florentino, não tinha nenhuma Beatriz a lhe esperar, nem muito menos pôde contar com a sabedoria de quem quer que seja para lhe iluminar o caminho. Sua revolta foi solitária, mas seu grito abalou toda a terra. Em seus delírios, chega mesmo a ser profeta, e aponta alguns dos dramas dos homens futuros. “La Science, la nouvelle noblesse!” (A ciência é a nova nobreza!), brada ele do fundo de seu inferno, e talvez nem tivesse o total alcance do que dizia.

Irônico, não viu nos velhos padrões de beleza ocidentais senão as suas imperfeições, ao ponto de destacar em sua Vênus apenas a “belle hideusement d’un ulcère à l’anus” (bela hediondez de uma úlcera no ânus). E chegou a afirmar, em sua Oração da Tarde, de forma irônica e amarga, que cuidadosamente afogou seus sonhos no álcool para depois, como um deus, mijá-los para os céus cinzentos. Mais tarde, o também jovem e genial Vinícius de Moraes, um fã incondicional do poeta maldito, escreverá o famoso e debochado “Soneto de Intimidade”, no qual o verso “mijamos em comum numa festa de espuma” é uma influência direta do poema de Rimbaud.

Foi um revoltado, mas conseguiu com sua revolta dar à poesia francesa e ocidental um novo panorama. E tudo isso para quê? Para acabar obscuro em uma cama ordinária, deformado pelo câncer que o obrigou a amputar uma das pernas, ainda mais solitário e infeliz. “Não faço outra coisa senão chorar, dia e noite; sou um homem morto, estropiado para o resto da vida”, escreveu ele. Sem poesia, mutilado e sozinho, Rimbaud de fato experimentou sua temporada no inferno. Apenas mais tarde a posteridade o salvará de seu exílio. Mas: o que valem a fama e a glória para uma alma tão ambiciosa que se foi desiludida e miserável desse mundo? O jovem Shakespeare morre no dia 10 de dezembro de 1891. Tinha então 37 anos. Apenas sua mãe e sua irmã Isabelle comparecem ao seu luxuoso velório, realizado na igreja de sua cidade natal. Não admitiram mais ninguém. A literatura foi para Rimbaud um fogo que o consumiu de tal modo que fez com que ele se destruísse em suas próprias chamas. Talvez seja esse o preço da beleza. Em todo caso, o poeta tinha razão: por delicadeza, ele perdeu sua vida.

[1]Nas tardes de verão, irei pelos vergéis,/Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda:/Sonhador, sentirei um frescor sob os pés/E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda./Calado seguirei, não pensarei em nada:/Mas infinito amor dentro do peito abrigo,/E como um boêmio irei, bem longe pela estrada,/Feliz – qual se levasse uma mulher comigo.

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