Sobre O Futuro do Pensamento Brasileiro

por Olavo de Carvalho

Transcrição feita por Alexandre Ferreira

Palestra realizada no I Encontro da Juventude Conservadora da Universidade Federal do Maranhão, a 05 de agosto de 2016, via videoconferência.

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Início da Transmissão]

Muito bem, boa tarde a todos, muito obrigado pelo convite tão gentil para dar umas explicações aqui sobre o meu livro O Futuro do Pensamento Brasileiro, que está sendo relançado agora pela Vide e que pode gerar muitas discussões frutíferas e proliferar em novos estudos sobre os temas ali anunciados, o que é exatamente o que eu espero que aconteça. Todos os meus livros estão repletos de sugestões descontinuadas – ideias para estudos absolutamente necessários e urgentes sobre a sociedade brasileira, a cultura brasileira, a mentalidade brasileira etc. etc. que não foram empreendidos até agora e estão esperando uma nova geração de estudantes e estudiosos que preencha essa lacuna; essa geração são precisamente vocês. Quer dizer, esses livros contêm não só um apelo, mas uma série de perguntas que eu não tive nem tempo nem meios para responder, mas que precisam ser respondidas.

Então, com relação à cultura brasileira nós temos aí pelas nossas costas uma vasta tradição de lugares-comuns, de chavões, de escritos culturais que sempre vão remeter à tripla origem – portuguesa, índia e africana – e repetir os chavões de sempre sobre isso. As origens étnicas da cultura brasileira, se vocês querem saber, não têm a mais mínima importância, porque a grande cultura de um país não é feita pelas suas origens étnicas, mas por indivíduos que exatamente transcenderam as suas origens étnicas e estão falando numa escala mais universal. Se você disser: “Bom, nós vamos explicar aqui a obra de Machado de Assis, Cruz e Sousa e Lima Barreto pelas suas origens africanas…” Isso é absolutamente impossível! Não que não tenha nada, tem alguma referência. Por exemplo, Machado de Assis está narrando uma história e tem na história um neguinho passando na rua vendendo pipoca – está aí uma referência. Ele fala que tem um escravo na casa – está aí uma referência. Mas todas essas referências fazem parte da matéria, não da forma. Existe algo na forma da nossa literatura que deva algo à literatura indígena, africana ou mesmo portuguesa? Não, porque as nossas formas foram aprendidas em primeiríssimo lugar da literatura francesa. Aprendidas e aprimoradas da cultura francesa, e da cultura europeia em geral. Por exemplo, não se pode esquecer a influência tremenda que Laurence Sterne teve sobre a técnica narrativa de Machado de Assis. Só que Machado de Assis vai infinitamente além do Sterne, ele pega aquilo e aperfeiçoa, transforma num instrumento de sondagem profundo do espírito humano. Do mesmo modo, você vê que a mentalidade do Lima Barreto foi feita quase que inteiramente lendo os livros do Hippolyte Taine, um grande historiador da época. Mas vão perguntar: “A técnica narrativa do Lima Barreto e os assuntos dele dependem do Taine?” Não dependem, absolutamente, é tudo uma elaboração original. A alta cultura é sempre obra de indivíduos que conseguem se erguer acima de seu meio sociocultural, senão não seriam obras que pudessem sobreviver à passagem das gerações e teriam apenas uma função documental.

Você veja: a porcaria da nossa Constituição declara como cultura nacional obras e objetos que dão testemunho do modo de ser do povo. O que dá testemunho do modo de ser do povo? Um exemplar de um jornal de crimes, de notícias populares dá testemunho e nem por isso vai se integrar à nossa cultura. Qualquer noticiário policial que dê conta dos sessenta ou setenta mil homicídios anuais dá conta do nosso modo de ser. Essa desgraça toda que está acontecendo nas Olimpíadas do Rio dá testemunho do nosso modo de ser. Isto é cultura? Bem, é, no sentido antropológico, mas não é cultura no sentido pedagógico, não é algo que tenha em si uma força educativa. Ao contrário, tem uma força tremendamente deseducativa. Qualquer documentário de costumes bárbaros, antropofagia, por exemplo, no sentido antropológico é cultura, mas nós vamos ensinar antropofagia às pessoas e dizer que é bonito? Claro que não! Do mesmo modo, hoje em dia se quer impor à cultura humana não só um ponto de vista antropológico – como se fosse algo monopolístico, que deve dominar todo o panorama – mas se quer impor até o ponto de vista etológico: tem gente que estuda a sociedade dos macacos bonobos e diz que isso é um modelo para a sociedade humana porque eles resolvem seus conflitos mediante competição sexual, em vez de fazer guerra. É muito bonito: os macacos grandes comem os macacos pequenininhos, está ali a pedofilia institucionalizada e isto, de acordo com esses antropólogos e etólogos, é um exemplo para a espécie humana. Então é claro que por esse lado puramente antropológico a cultura acaba sendo reduzida a um desenho absolutamente caricatural. E o ponto de vista antropológico tem predominado nos estudos sobre a cultura brasileira de uma maneira absolutamente avassaladora. São dezenas de questões públicas que são decididas na base de decisões de antropólogos. Por exemplo, certas tribos de índios quando não querem um bebê simplesmente o enterram vivo. “Vamos proibir isso?” Daí entra o antropólogo e diz: “Não, isso aí é da cultura indígena, nós temos que respeitar, temos que continuar deixando fazer essas coisas…” Então você entra num conflito entre o conceito geral de direitos humanos e o conceito cultural de direitos humanos – você tem um direito para todo mundo e outro direito para o pai que quer se livrar do bebê indesejado. Tem havido uma espécie de imperialismo antropológico nos estudos sobre cultura brasileira. Nós temos que restaurar o ponto de vista pedagógico, entender como cultura aquilo que tem valor e que merece ser transmitido às gerações seguintes porque tem força pedagógica e vai ajudar essas novas gerações a se situarem no mundo, a pensar, a tomar decisões responsavelmente, a amadurecer, a se tornar pessoas adultas – é isso que nós temos que transmitir na cultura, e este é o sentido pedagógico da cultura. Os antropólogos têm orgulho de não fazer juízo de valor; em pedagogia, é impossível você não fazer juízo de valor, ela é todinha é uma seleção baseada em valores – o que devemos ensinar e como devemos ensinar, o que devemos transmitir, preservar das gerações passadas e passar às gerações seguintes.

Na própria antropologia a regra da abstinência de juízo de valor já adquiriu um sentido absolutamente perverso: primeiro você diz “a nossa ciência deve se abster de juízos de valor” e no capítulo seguinte você já faz um juízo de valor que é o seguinte: “não há juízo de valor, não há diferença de valor”. É claro que isso é uma coisa pueril, mas, junto com a regra da abstinência do juízo de valor, a inexistência de valores diferentes ou de uma escala de valores é transmitida a gerações e gerações de estudantes como se fosse uma verdade do Evangelho.  Nós não podemos comparar as práticas de S. Francisco de Assis com as de um canibal porque são juízos de valor e nós não podemos fazer. Ou seja, quando uma ciência se torna incapaz de perceber aquilo que qualquer zé-mané da rua percebe, quem está errado não é o zé-mané, é a ciência. E isso é uma coisa natural porque o senso comum da humanidade vem se desenvolvendo há milênios. Agora, tem uma ciência que apareceu ontem e você quer que ela alcance o nível de complexidade que o senso comum já tem? Claro, isso é impossível.

Isso acontece em todos os ramos do conhecimento. Aquilo que é pré-científico já tem uma história milenar e vem se desenvolvendo há muito tempo por mecanismos que fazem parte da natureza e que não são controlados humanamente, como, por exemplo, todas as doenças autorremissíveis. Muitas doenças são autorremissíveis. Como é que faz isso? A natureza sabe, nós não sabemos. Até a ciência apreender esses mecanismos vai passar muito tempo.

Por definição – para aqueles que acompanharam as minhas aulas já devo ter dito – não existe nenhuma ciência que lide com fatos concretos. Isto é impossível. A ciência lida sempre com uma seleção abstrativa que determina um ponto de vista, e este ponto de vista é que seleciona os aspectos dos fatos a serem levados em consideração e esquece os outros. Portanto, a ciência só lida com recortes abstrativos e jamais com fatos concretos. Uma ciência do fato concreto é absolutamente impossível. E, no entanto, todos nós na vida diária temos que lidar com fatos concretos – isso quer dizer que o ser humano tem na órbita da sua (vamos usar o termo kantiano) razão prática capacidades que na esfera da razão cognitiva ele não tem. Por exemplo, todos nós temos uma certa capacidade divinatória sem a qual não conseguiríamos atravessar a rua. Você tem certeza científica de que não vem vindo nenhum carro, de que nenhum vai te acertar? Você não tem a certeza, você tem uma conjetura quase instintiva, e essa conjetura funciona. Quando uma ciência alcança o nível dessas operações do senso comum? Jamais. O senso comum sempre supera e vai adiante. A ciência aprofunda o conhecimento em certos pontos bem determinados, mas, no que diz respeito à existência geral do ser humano, o senso comum, os instintos, a intuição continuam funcionando muito melhor. Se você vai para o ramo das ciências sociais, me responda a seguinte questão: quantos grandes cientistas sociais, cientistas políticos previram a queda da URSS em 1990? Praticamente ninguém. Conheço acho que dois que mencionaram isso antecipadamente, que fizeram as contas e falaram: “Olha isso não vai dar, isso vai falir, vai cair etc. etc”. Mas a maioria era o contrário. Cinco anos antes da queda da URSS saiu o livro do Paul Kennedy, “Ascensão e Queda das Grandes Potências”, dizendo que na geração seguinte os EUA iriam cair e que a URSS iria se tornar a potência dominante. Fez um sucesso mundial. Depois que aconteceu exatamente o contrário, o que o Paul Kennedy fez? Pediu desculpas? Não, fez de conta que não era com ele – e tem gente que até hoje lê esse livro do Paul Kennedy como se fosse uma grande obra. Agora me perguntem assim: quantos videntes e astrólogos previram a queda da URSS? Certamente mais do que cientistas políticos.

Então isso quer dizer que existe um certo conhecimento disseminado na cultura que não é formalizado (que não quer dizer que seja irracional, não tem nada de irracional) e que não raro é mais eficiente que o conhecimento científico. Isto o que eu estou dizendo já é um dos princípios da própria ciência. A ciência tem que partir de um conhecimento pré-científico que ela tem que respeitar como um patrimônio, um ponto de partida. Isso o próprio Aristóteles já dizia.

No Brasil aconteceu que o conhecimento popular da cultura foi sobrepujado pelo ponto de vista especializado dos antropólogos. O resultado disso é que, por exemplo, o Ministério da Cultura declarou o samba do recôncavo baiano como valor cultural universal. Eu digo: ah, sim, é valor cultural universal, mas Villa-Lobos não é? [Inaudível] não é? Hekel Tavares não é? Quer dizer, todos os nossos grandes compositores não são? Por que que o samba do recôncavo tem essa importância? Ele é um valor de que a humanidade precisa? A humanidade sem isto está empobrecida? É claro que não, porque todos os países têm os seus folclores, estão lotados dessas coisas e não estão precisando do samba do recôncavo da Bahia para porcaria nenhuma. No entanto, se você perguntar: “A cultura universal precisa do Villa-Lobos?” Precisa, porque ele fez alguma coisa que os outros não são capazes de fazer. Ele fez um upgrade em tudo o que ele aprendeu com a música clássica e daí outros podem aprender com ele. São estes valores, que têm utilidade, que têm uma importância às vezes salvadora para o resto da humanidade, que nós temos que transmitir com o nome de cultura brasileira. Ou seja, nós temos que ensinar aos outros coisas que nós sabemos fazer e que eles não sabem. Se você pegar, por exemplo, toda a técnica novelesca do Machado de Assis, não tem similar no mundo, e não é só porque é diferente. Ela é melhor, ela aperfeiçoa, ela chega a pegar certas nuances da psique humana que é difícil você narrar o aprendido de uma outra maneira. Do mesmo modo, se você pegar a obra do Gilberto Freyre, ela alargou campo das ciências sociais de uma maneira formidável, tornando cognoscíveis amplos setores da existência social sobre os quais antes nem a sociologia, nem as ciências políticas, nem a antropologia tinha nenhum poder de preensão. Ele ampliou isso aí, entregou esse material para seus sucessores, e isto foi reconhecido no universo inteiro. Só no Brasil que não é. O cara dá uma riqueza para o mundo, o mundo reconhece, mas no Brasil o pessoal faz de conta que não. Por quê? Porque não corresponde às imagens estereotipadas. Isto não quer dizer que tenhamos que concordar com 100% com as interpretações que Gilberto Freyre fez. É claro que não. Muitas vezes a contribuição maior de um cientista social, de um historiador não está nas suas conclusões explícitas, mas nos instrumentos que ele criou para usar. Agora mesmo citei o Hippolyte Taine. O livro dele sobre a Revolução Francesa, “As Origens da França Contemporânea”, está cheio de erros históricos, porque naquele tempo não havia documentação suficiente, a documentação aumentou muito depois e os historiadores seguintes corrigiram muitas das suas conclusões, das suas narrativas. No entanto, ele tem um modo de enfocar as coisas que continua válido. Uma técnica interpretativa e narrativa que vale por si independentemente da aplicação que seu próprio inventor fez dela. Até hoje podemos aprender história lendo o livro do Hippolyte Taine, ainda que não possamos acompanhar todas as suas conclusões sobre os fatos. Do mesmo modo, o Gilberto Freyre tem muitas conclusões que foram superadas pela documentação posterior. Mas ele criou um modo de fazer sociologia e de fazer história social e esse modo continua ensinando gerações e gerações.

Então, nós temos que pegar de toda a produção cultural brasileira não aquilo que documenta o nosso modo de ser, porque o modo de ser muda – aquilo que era importante numa geração deixou de ser importante na outra –, mas aquilo que tenha utilidade e valor pedagógico para as gerações seguintes e para o público do exterior, idealmente para a humanidade inteira. Se nós perguntarmos o que nós demos realmente para a humanidade, no conjunto da cultura – e neste livrinho me abstive propositadamente de abordar literatura de ficção, as artes, o teatro etc. etc. e me ative à área de filosofia e ciências humanas –, vi que espremendo tudo sobravam quatro obras, que são a do Miguel Reale, a do Otto Maria Carpeaux, a do Gilberto Freyre e a do Mário Ferreira dos Santos, que são riquezas das quais o mundo precisa, e este que tem que ser o critério. Um país não pode viver na contemplação eterna de seu próprio umbigo. “Ah, estamos procurando a nossa identidade!” Bom, você chega na Islândia e que importância tem a identidade brasileira pro cara da Islândia, ou pro cara da Zâmbia, ou pro cara de Serra Leoa? Nenhuma, ele quer que o brasileiro se dane, ele está preocupado com o seu problema. O quê que nós vamos consumir da cultura que vem desses lugares? Aquilo que tiver um valor universal e utilidade pra nós, e eles farão exatamente a mesma coisa…

Então neste livrinho “O Futuro do Pensamento Brasileiro” a minha preocupação foi a seguinte: o que nós temos para dar à espécie humana, não só a nós mesmos. Se nós ficarmos o tempo todo só pensando em nossos problemas nacionais, no umbigocentrismo da “nossa identidade”, bem, isso é tão interessante quanto você ter um vizinho que só fala nele mesmo o tempo todo, ou você casar com uma mulher que só fala dela, do pai dela, da mãe dela, da porcaria da identidade dela. Você não aguenta uma semana, meu Deus do céu, você joga a mulher pela janela! Um país que ao falar com os outros só fala de si mesmo é apenas um chato universal, e muito do que nós transmitimos para o exterior é baseado nisto. São coisas que têm uma importância folclórica e antropológica para nós, e é isso que nós mostramos no exterior. Só que acontece o seguinte: você faz uma exposição sobre a cultura indígena no raio-que-o-parta etc. etc., ou sobre costumes coloniais do séc. XVIII, e vai mostrar isso aí na França. Bom, o francês vai tomar isso aí como matéria de estudo, como objeto de estudo. Isto não vai transmitir a ele novas formas de compreensão. Ao contrário, apenas vai dar um material documental, e eles vão estudar isso como eles estudam a antropofagia de uma tribo da África ou aqueles sapatos chineses que apertam os pés das menininhas – são curiosidades folclóricas que servem para alimentar a curiosidade de antropólogos. As formas, os esquemas dos sistemas antropológicos são os europeus. Então nós estamos nos oferecendo para ser objeto de estudo, nós estamos entrando lá como um macaco entra num estúdio de zoologia. Você não pode dizer que um macaco ou um hipopótamo são alheios à zoologia – não, eles são objetos de estudos da zoologia. Então nós vamos lá e nos expomos num museu, numa jaula, dizendo: olha, estudem-nos! Isso é que uma coisa profundamente ridícula! Agora, se você chega lá com o Mário Ferreira dos Santos – e o Mário Ferreira dos Santos não é objeto, é uma forma que se sobrepõe à cultura europeia e a amplia –, ensina coisa que eles não sabem! Então, entre você entrar na aula como professor que está ensinando ou você entrar como macaquinho que vai ser estudado, ou o sapo que vai ser dissecado, o Brasil tem escolhido sistematicamente esta última alternativa. É claro que é uma coisa absolutamente suicida, idiota, de você se fazer de palhaço.

Quem ganha com isso? A classe dos cientistas sociais ganha muito, porque eles se tornam os donos da cultura, e aquilo que não entra na perspectiva deles fica fora da cultura. Por exemplo, você não tem como reduzir o Mário Ferreira dos Santos às categorias usuais de pensamento dos nossos cientistas sociais e filósofos universitários. Então ele fica fora, ele é grande demais, ele não cabe. É como você tentar fazer caber um hipopótamo numa ratoeira – não vai dar, então fica fora o hipopótamo. E é isso que tem acontecido: os valores mais altos são desprezados e os menores são cultuados, porque esses menores promovem e exaltam aqueles que os estudam. Então você tem um interesse de classe – pessoas dedicadas às ciências humanas, filosofia – em manter a cultura brasileira a sob sua administração. Quando você entra no aspecto do campo ideológico, o tipo de seleção de material que se faz nas universidades brasileiras é uma coisa de uma indecência extraordinária, porque só entram duas correntes de pensamento: o marxismo e o positivismo. Até outro dia estava aquele idiota semianalfabeto do Renato Janine Ribeiro dizendo o seguinte: “nós temos que ser democráticos, nós temos que ensinar Marx mas também temos que ensinar Durkheim”. Eu digo: mas isso vocês já fazem, e é este exatamente o problema! Vocês escolhem o marxismo e o positivismo porque o positivismo representa a revolução burguesa e o marxismo representa a revolução socialista – está tudo numa linha de continuidade, e de certo modo o pensamento positivista já está absorvido no marxismo porque o marxismo é o seu sucessor como a revolução socialista é sucessora da revolução burguesa. Então o problema, e por isso eu tenho reclamado um pouco do pessoal que fala da doutrinação nas escolas – olha, doutrinação é você transmitir uma doutrina, e é impossível você transmiti-la sem discutir –, é que o que há não é doutrinação, é propaganda mesmo. E, sobretudo, o que existe é censura: existe uma seleção brutal do material, e exclusão de noventa por cento. E estes noventa por cento, se incluídos, dissolveriam na hora aquele quadro mental tão pequenininho, tão imitativo que tem sido imposto em todas as nossas universidades. “Ah, você vai estudar sociologia, você tem que estudar Durkheim.” Não, não, não! Você tem que estudar não a pessoa que disse um negócio parecido e que se opõe ao marxismo em detalhes, como Durkheim ou Weber, mas alguém que tenha feito uma proposta cem por cento oposta, inconciliável e tão ampla quanto o marxismo. Por exemplo, por que você não pega o Werner Sombart, no livro Noo-Soziologie, A Sociologia do Espírito? Isso você não pode fazer, porque não tem pontos de comparação com o marxismo. Por que você não pega o pensamento do Luigi Sturzo, que foi o fundador da Democracia Cristã Italiana, tão influente na política até hoje, embora já tenha morrido há não sei quanto tempo, e tem também uma sociologia baseada em fatores espirituais? Nisto você não pode entrar! Então fica aquela conversa: “ah, nós somos democráticos, nós ensinamos Karl Marx, Durkheim e Weber”, ou seja, ensinando marxismo e positivismo, que são gêmeos concorrentes. No próprio ato de mostrar que é democrático o Janine Ribeiro mostra que ele não é, mostra que ele está impondo censura.

Se você pegar, por exemplo, em sociologia, o Marx e o Pitirim Sorokin – um russo que foi ministro do governo de Kerensky, e que fugiu pros EUA, onde ele se tornou presidente da Associação Sociológica Americana por muitos anos e era certamente o sociólogo de maior prestígio nos EUA (quando ele morreu sumiram com tudo, evidentemente). A sociologia do Sorokin é de uma amplitude que engole o marxismo. Ora, o Weber e o Durkheim não engolem o marxismo; concorrem com ele em alguns pontos. Então por que não Marx e Sorokin? Porque o Sorokin vai curar você do marxismo de uma vez pra sempre, ao passo que Weber e Durkheim vão ficar ranhetando e não vão fazer mal nenhum. É este o problema: não a doutrinação, mas a exclusão, a censura, a moldagem, a pré-moldagem do debate. E disso eles não vão abdicar de jeito nenhum, e é por isso que a proposta deste Encontro criou tantas reações. “Ah, nós somos democráticos, nós pegamos o pessoal marxista e pegamos, sei lá, o Mário Sérgio Cortella” (que não é marxista, evidentemente). Eu digo: sim, só que ele não faz mal nenhum! Por que você não pega os seus marxistas e o Olavo de Carvalho? Porque o Olavo engole todos, come todos de uma só vez, então isso não pode. E é sempre assim, esta pré-moldagem do debate, esta imposição de padrões limitadores, paralisantes, aleijantes têm acabado com os estudos de ciências sociais e filosofia no Brasil, e é isso que nós temos que romper de uma vez por todas. Ou seja, nós temos que ampliar o espectro da nossa área de interesse de uma maneira monstruosa, nós temos que ler tudo o que eles não querem que nós leiamos – e que eles nem conhecem também… Quando eu digo que eles impõem essa limitação, eles impõem em primeiro lugar a si mesmos – eles não leem nada fora disso. Quantos estudaram profundamente o Sorokim? Acho que no Brasil atual nenhum. Não conheço um cientista social brasileiro que ao menos cite o Sorokim. Ou o Sombart. Deste, citam alguma coisinha do livro dele sobre os judeus e o capitalismo, que foi objeto de debate, este eles citam de vez em quando. Mas a grande obra do Sombart não é essa, a grande obra dele é a obra teórica, a Noo-Soziologie.

Este livrinho [O Futuro do Pensamento Brasileiro] foi concebido como um pequeno estímulo para começar a encarar o termo cultura brasileira de outra maneira, estourar esse limite dessa concepção antropológica que é [inaudível], na verdade, e começar a entender a cultura no sentido pedagógico, no sentido de grandes obras, grandes contribuições que o Brasil já fez à cultura universal. Amputada dessas contribuições o Brasil vira uma cultura provinciana a ser estudada por um antropólogo alemão ou francês, que vai estudar os costumes dos nossos indígenas ou, sei lá, as lutas de classe do campo. E tudo isto é matéria do estudo, e não forma – lembrando aqui a famosa distinção de Aristóteles entre matéria e forma: toda ciência se distingue primeiramente pela sua matéria, pelo seu objeto de estudo, e em segundo lugar pela forma. Mas a matéria é praticamente a mesma em todas as ciências. Se você pegar todas as ciências naturais, qual é a matéria delas? É o mundo natural; e elas se distinguem pela forma, pelo ponto de vista específico que elas adotam. Nós temos que parar de ser fornecedores de matéria prima para as ciências estrangeiras e começar a ser forjadores da cultura universal. Ora, nós temos todos os elementos pra isso. Só essas quatro obras que eu mostrei… me mostre, no mundo, um sujeito que tenha explicado melhor a natureza do direito do que o Miguel Reale. Os caras tentaram durante gerações e gerações e foi o Miguel Reale, com livrinho deste tamanhinho, chamado Teoria Tridimensional do Direito, que matou o problema. Isto é uma coisa que vale para o mundo inteiro, é útil pro mundo inteiro. Me mostra alguém que tenha escrito uma história da literatura melhor que a do Carpeaux. Não tem! Me mostra um filósofo com a amplitude cognitiva e explicativa do Mário Ferreira dos Santos. Também não tem! É isso que nós temos que mostrar, é isso que nós somos realmente! Nós não somos a matéria que nos compõe – nós não somos aquilo que nós comemos – mas aquilo que nosso espírito criou. Temos que parar de ter essa concepção intestinal da cultura e começar a ter uma concepção espiritual. É este que é o apelo do livro e é este o apelo que eu estou fazendo a vocês. Se os seus professores acharem ruim… Bom, em geral professor universitário no Brasil vocês sabem como é que é. Se cinquenta por cento dos formandos das universidades são analfabetos funcionais, e está provado que são, isto quer dizer que cinquenta por cento dos professores, ou pelo menos os mais jovens, também são. Qual a autoridade intelectual dessa gente? Zero. Não há nada pra apresentar. Eu há muitos anos não leio uma única tese universitária que não esteja repleta de erros de gramática desde a primeira linha. Até onde vai continuar isso, esta espécie de conspiração de incapazes, de analfabetos, para ninguém perceber que eles não sabem nada? Até quando teremos paciência com essa porcaria?

A missão de todos vocês, a missão desta geração é a de estourar a bomba da qual eu acendi o estopim. É esta sua missão: sanear o ambiente, elevar muitíssimo o nível do ambiente.

É isso o que eu queria dizer. Muito obrigado, muito boa sorte a todos e até a próxima vez.

***

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Olavo: Pô, foi legal, hein?

Aluno: Que aulão, hein?

Aluna: Poxa vida, uma das melhores coisas que você falou ultimamente!

Olavo: É mesmo? Tá gravado aqui.

Aluno: Graças a Deus!

Aluna: Ah, que bom que você gravou! Na última hora… Por um tris que ele não esquece.

[Fim da transmissão]

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