“Nova direita” só terá impacto duradouro se não desaprender a pensar, diz José Lorêdo Filho, da Resistência Cultural

Editor da Livraria Resistência Cultural comenta a história e os valores da sua empresa e traça breve análise das perspectivas do movimento liberal e conservador no Brasil

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Dom Betrand – segundo na linha de sucessão da Família Imperial – e o empresário e editor José Lorêdo Filho (Foto: Divulgação / Facebook).

Entre as iniciativas editoriais que despontam no cenário de efervescência do pensamento conservador e liberal no Brasil, está a iniciativa do empreendedor maranhense José Lorêdo Filho: a Livraria Resistência Cultural. A jovem editora de São Luís funciona ao mesmo tempo como uma plataforma para publicação de livros, visando um resgate das tradições nacionais, e um ponto de encontro do meio conservador da cidade. Embarcando em um mercado de desafios notórios, Lorêdo já emplacou obras como Contos de fadas e outros ensaios literários, do pensador britânico G.K. Chesterton; O homem mais lúcido do Brasil – as melhores frases de Roberto Campos, reunido pelo conhecido jornalista Aristóteles Drummond; Um caldeirão chamado 1964, do mesmo autor, e Uma breve teoria do Poder e Poesia completa, de Ives Gandra Martins.

Nesta entrevista exclusiva ao Boletim, ele comenta a proposta e os desafios da sua iniciativa e traça sua visão do cenário dos desafios e realizações no mercado editorial e do movimento liberal e conservador como um todo.

Boletim da Liberdade: Como a Resistência Cultural surgiu e de que maneira você definiria a proposta, a missão e os valores da empresa? Você já teve alguma experiência antes no ramo de editoras ou livrarias?

José Lorêdo Filho: A Resistência Cultural surgiu na Feira do Livro de São Luís de 2010, na qual conheci boa parte dos amigos que viriam a atuar comigo na formação de um núcleo central de difusão do ideário conservador na cidade. Uns são católicos e monarquistas, como eu; outros, não, mas todos estão dispostos a lutar.

O objetivo da Resistência é justamente, através da publicação e venda de bons livros, difundir o ideário conservador na cidade, no Estado e no restante do país. Evidente que se trata de uma empresa, com as suas necessidades e obrigações, mas indissociável de uma postura de defesa de certos valores e princípios, que reputo consentâneos com a história e tradições do Brasil.

O objetivo da Resistência é justamente, através da publicação e venda de bons livros, difundir o ideário conservador na cidade, no Estado e no restante do país.

Boletim da Liberdade: Qual a sua avaliação dos desafios e características do mercado editorial e, principalmente, seu diagnóstico e perspectivas para as editoras que se aventurarem a apostar em lançamentos que atendam ao público liberal e conservador?

José Lorêdo Filho: Em qualquer país civilizado do mundo – ou assim tido – o livro é a ferramenta fundamental de debate público. No Brasil, onde tudo é possível, as coisas têm um ritmo peculiar. Seja como for, o nosso mercado editorial vem sofrendo mudanças consideráveis para melhor. O segmento liberal-conservador é, provavelmente, o mais interessante, mas admito que muitos dos novos nomes dessa tendência acabam se revelando, digamos, defuntos de nascedouro, ao vestirem a camisa de força do comentário irritadiço de Facebook ou da postura patética de vídeo de YouTube.

Inequivocamente, no entanto, há muita gente boa surgindo, alguns dos quais já publicados em livro, o que robustece a nossa pobre democracia. Pouco tenho a dizer sobre essa questão de mercado editorial, a não ser o que já disse; acho, apenas, que as perspectivas futuras são excelentes.

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Boletim da Liberdade: De que forma a Resistência Cultural se organiza e como ela planeja e avalia seus lançamentos? Existe alguma parceria ou diálogo com think tanks, grupos de estudo ou instituições de discussão e difusão dos ideários liberais e conservadores? De que maneira essas instituições poderiam ser úteis às editoras, e vice-versa?

José Lorêdo Filho: Resistência tem como linha editorial básica recolocar em circulação os clássicos do que chamaríamos de conservadorismo brasileiro (mas não apenas). Por questões de contingência, acabamos por publicar um Roberto Campos (das mais luminosas inteligências da história pátria, mas liberal demais para o meu gosto) antes mesmo de um José Pedro Galvão de Sousa, cuja obra é de suma importância para o resgate das tradições pátrias. Isto é próprio de qualquer empresa.

Mantemos contato permanente ou temporário com diversas instituições, como o Expresso Liberdade, o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, o Instituto Liberal, entre outras. A importância desse intercâmbio de informações e experiências é imensa, pois, como sabemos e faço questão de reiterar, um debate público elevado não pode prescindir de um corpo bibliográfico mínimo, seja de autores clássicos, seja de contemporâneos, que têm a pretensão de ser a continuidade daqueles. Vale dizer: não se faz história sem livros.

Boletim da Liberdade: Quais são, em sua opinião, as maiores carências e deficiências que a “nova direita” brasileira encontra, quer na sua presença no mercado editorial, quer em matéria de instituições e de movimento em si mesmo?

José Lorêdo Filho: O povo brasileiro possui grande capacidade de associação e é genuinamente empreendedor. Às vezes me pergunto como se consegue viver neste país, pois o esforço é imenso. As duas grandes peculiaridades do nosso caráter são uma intuição poderosa e uma racionalidade paupérrima. Li ainda agora, com raro proveito, um livro extraordinário, presente do meu amigo José Carlos Sepúlveda: Minha vida pública, do prof. Plínio Corrêa de Oliveira, constituído por relatos memorialísticos extraídos de sua obra escrita, conferências e entrevistas. Logo no início, o prof. Plínio relata como a sua concepção católica e ultramontana de vida fora produto antes de sua “observação da realidade” do que “dos livros”. Oliveira Vianna dizia, não sem melancolia, que o brasileiro desaprende a pensar depois que se torna instruído (Instituições políticas brasileiras). Isto porque o brasileiro queria deixar de ser brasileiro, de raciocinar como brasileiro e de escutar a sua intuição poderosíssima.

Debate público elevado não pode prescindir de um corpo bibliográfico mínimo, seja de autores clássicos, seja de contemporâneos

Penso que o movimento da “nova direita”, o mercado editorial que lhe dá suporte, a ferramenta indispensável que é a internet – tudo isso só terá alcance de médio a longo prazo, com vistas à recondução do Brasil ao seu papel histórico, se a “nova direita” não desaprender a pensar.

lancamentosRecentes lançamentos da editora: Uma breve teoria do Poder, de Ives Gandra Martins, e O Homem mais realista do Brasil, seleta de frases de Delfim Netto. (Divulgação)

Boletim da Liberdade: Que tipo de projetos editoriais ou iniciativas a Resistência Cultural está planejando para 2017, e que metas ou sonhos gostaria de atingir?

José Lorêdo Filho: 2017 será, e já está sendo, um ano perturbador. São muitas as efemérides, e guardam entre si uma ligação íntima: os 100 anos da Revolução Bolchevique, os 300 anos da fundação da maçonaria e os 500 anos da revolta de Lutero. Esses três acontecimentos desastrosos possibilitaram o surgimento do mundo relativista em que vivemos, em que tudo, inclusive a vida e a liberdade, viraram objeto de deliberação legislativa. Outro dia um padre, nem um pouco progressista, dos poucos de corte tradicional, tentou me negar a Eucaristia, em função das minhas críticas públicas ao Papa Francisco. Tive de lhe dar um coice para que ele respeitasse o meu direito de católico de ter acesso aos Sacramentos. Dias depois, um outro padre, este mais piedoso, por motivos pessoais, segundo disse, decidiu deixar de celebrar a Missa no Rito Tridentino, deixando-nos, aqui em São Luís, entregues mais ainda às Missas celebradas sem nenhuma reverência e sacralidade. Não sou sedevacantista nem considero inválida a Missa de Paulo VI, mas a Missa Tridentina era a única realmente celebrada com piedade e beleza. Então, o negócio já começou a degringolar… Mas o nosso couro tem de ser de crocodilo.

As duas grandes peculiaridades do nosso caráter são uma intuição poderosa e uma racionalidade paupérrima.

Já que o momento é de decadência, publicaremos a reedição comentada (pelo meu amigo Daniel Laguna, estudioso notável) do clássico livro do Pe. Leonel Franca, A Igreja, a Reforma e a Civilização; a reedição revista e ampliada dos livros A democracia coroada e Os construtores do Império, ambos de João Camilo de Oliveira Torres; o livro de estreia do jornalista e economista Nivaldo Cordeiro; duas obras em comemoração ao centenário (esta, sim, uma efeméride digna de ser comemorada) de Roberto Campos; um livro do embaixador Vasco Mariz; a tese de doutoramento de Marcus Boeira (um livro que já nascerá clássico, como se diz) e mais algumas outras das quais não posso falar ainda.

As únicas metas concretas que gostaria de atingir, em 2017, são casar com uma certa d. Caroline Rêgo (a talentosa editora de arte e designer da Resistência) e publicar os livros a que me referi. O resto é consequência.

Postado originalmente aqui.

 

 

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