Resenha do livro Jardim das Aflições – Olavo de Carvalho

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A partir de uma palestra de José Américo Motta Pessanha, em um seminário de ética em 1993, Olavo de Carvalho constrói uma desconcertante narrativa sobre a falência intelectual de nosso tempo e a consolidação da nova era em que o indivíduo é destruído dentro de uma nova concepção de Império.

Introdução

Questiona os critérios do seminário no MASP que ao discutir a ética grega, referiu-se apenas às tragédias e a Epicuro, ignorando propositalmente os grandes filósofos gregos que trataram do assunto, notadamente a trinca Sócrates-Platão-Aristóteles. A ética medieval ficou reduzida à inquisição, ignorando completamente a escolástica e o monumental trabalho de Tomás de Aquino e Agostinho. Para Olavo, o sentido era claro, desviar as mentes de qualquer análise filosófica mais séria.

Pessanha teria apresentado Epicuro como modelo para a ética moderna e a partir deste ponto começam as reflexões de Olavo. Na verdade, o palestrante não queria construir um debate sobre ética mas usá-la como instrumento político. Analisando o caso do ex-presidente Collor, afastado do poder por um movimento de ética na política, Olavo mostra que o discurso foi apenas uma arma para atingir um objetivo claro: afastar do poder um presidente indesejado.

Epicuro

O título do livro remete ao jardim de Epicuro, que o autor identifica como raiz da nova ordem, o abandono do mundo real em favor de uma realidade artificial criada para iludir o homem em um esquema mental de felicidade. O epicurismo é apresentado como um disfarce do materialismo, uma falsa filosofia que só se sustenta pela abolição da consciência e a completa dissociação da prática com a teoria.

O epicurismo parte do princípio que tudo é material e que a densidade é que faz a diferença entre coisas mais “reais” ou menos “reais”. A diferença dos deuses é que estes seriam mais rarefeitos e, portanto, mais duráveis. Os deuses não se ocupariam do humano, apenas conversariam caracterizando-se como os filósofos na essência, dedicariam-se ao ócio contemplativo. O homem seria movido pela busca do prazer e a causa de seus movimentos seria o desejo.

O epicurista deveria seguir uma auto-disciplina em torno de quatro convicções básicas:

 
1. Não se deve temer a morte;
2. É fácil alcançar o bem (o prazer);
3. Não se deve temer à divindade; e
4. É fácil suportar o mal.

Esta disciplina teria como objetivo a perda da consciência e a fuga da realidade. A meditação epicúria, renascida em nossos dias, é uma fuga do real, uma física para hipnotizados. Trata-se da perda da distinção entre o efetivo e o possível. O senso do real é onde repousa a moral e a responsabilidade. O epicurista foge do conhecimento objetivo pois este reflete um compromisso com a verdade e a coerência. Surgem os desejos na cultura de massa, o trio sexo-dinheiro-fama, caracterizando uma nova ética baseada em novos valores provocando o rompimento com a tradição.

Olavo denuncia o uso das modernas técnicas de psiciologia como arma de convencimento e o epicurismo como a origem na história da humanidade da manipulação das mentes. Não demorou muito para que o Estado Nacional, as empresas e os movimentos de massa passassem a utilizar as técnicas de moldagem de personalidade com o objetivo de subjugar a mente humana em um culto universal do engano.

Em um capítulo fascinante, descreve os trabalhos de Pavlov, Poezl e outros, envolvendo a programação neuro-linguística, reflexo condicionado, estimulação incoerente provocando reação contrária, propaganda subliminar e a lavagem cerebral, agora em sua forma mais cruel: permanente e de forma subliminar. A utilização destas técnicas pode ser vista no pragmatismo, neopositivismo, marxismo, pseudo-religião e Nova Era.

Marx

Não por acaso, Marx começou seus estudos por Epicuro. Olavo identifica a simbiose entre teoria e prática como a mais forte ligação entre o epicurismo e o marxismo. Nos dois fenômenos há a nítida fuga da tentação da objetividade e a auto persuasão hipnótica; o papel do filósofo é transformar o mundo pois existe o culto à transformação, cujo objeto se torna um meio. A prática está acima da contemplação pois há um reinado dos meios invertendo o sentido da ação humana.

Os Braços e a Cruz

A era moderna começou com dois movimentos paralelos que logo entraram em choque entre si: a divinização do espaço e a divinização do tempo.

Na divinização do espaço, a ciência tornou-se o único critério da verdade. O mecanicismo tomou contra do mundo gerando a substituição do mundo real por esquemas matemáticos, gerando uma uniformização e simplificação da realidade. É o triunfo das ciências físico-matemáticas.

A divinização do tempo é o triunfo das ciências humanas. A partir do pensamento de Leibinitz (temos o universo dentro de nós) e Vico (só conhecemos o que fazemos), a única fonte verdadeira de conhecimento passa a ser a história. A vida intelectual deixa a Igreja e passa aos palácios, a dialética é abandonada em função da retórica.

Com Hegel surge explicitamente o culto ao Estado Moderno como substituto da Igreja na condução espiritual dos povos. Seja em sua versão comunista, nazista ou liberal, o estado se torna unipresente através do império das leis.

O epicurismo podia ser representado como o Iogue, aquele que acreditava em uma verdade em outro mundo. O marxismo era o Comissário, aquele que desejava mudar o mundo à imagem de sua verdade. Os tempos atuais mostram a simbiose entre Iogue e o Comissário, uma espécie de aliança do epicurismo com o marxismo contra um inimigo comum: a inteligência teorética. O homem de hoje quer ao mesmo tempo os prazeres da evasão consumista (capitalismo) e o sentimento da participação ética em uma epopéia redentora (socialismo). “Mais do que um líder ou guru, o iogue-comissário é um símbolo em que se projetam as mais potentes aspirações de nosso tempo em direção à utopia.”

Este deus histórico-cósmico já passou várias vezes pela história ocidental. Primeiro como César, o deus-imperador. Na segundo como o gnosticismo, o retorno à religião imperial para manchar com seus vapores os primeiros séculos do cristianismo.

O gnosticismo surgiu como uma reação global da mentalidade antiga contra o Cristianismo emergente. A nova religião teria se oposto a todas as anteriores ao não propor nenhum modelo social para a humanidade, ao ligar-se diretamente ao verbo, ao afirmar a salvação individual e por seu caráter universal. Até então, a religião tinha um caráter social onde o modelo social deveria espelhar a cosmovisão espiritual, uma religião para iniciados e que o acesso ao verbo só poderia ser realizado por líderes espirituais. O Cristianismo veio para dessacralizar o Estado pois o esforço deveria se dar na salvação da alma (auto-consciência) do homem solitário religioso e autônomo e não mais no melhoramento da sociedade e satisfação individual.

Olavo recorre à figura da cruz para mostrar um esquema para as religiões e seitas do mundo. Na haste vertical teríamos a alma na base e Deus na parte superior. No braço horizontal teríamos o “mundo” humano (Sociedade, lei, Histórica) de um lado e o “mundo” natural (cosmos, lei natural, ambiente físico) de outro. Estes quatro elementos estariam presentes em todos os fenômenos religiosos do mundo e se defeririam na ênfase de seus elementos.

Deus seria o único elemento físico em todas as religiões, mesmo que com outro nome ou reduzido a algum conceito abstrato, mas sempre presente. Os outros três fatores são móveis. Assim teríamos:

• Cristianismo: ênfase na relaçnao direta entre a alma e Deus (eixo vertical)
• Judaísmo: ênfase na relação entre Deus e a comunidade humana, o povo de Israel.
• Budismo: ênfase na alma

O cristianismo portanto, representava a perda da sociedade e da natureza como interlocutoras entre a alma e o divino e foi este o sentido da reação contra, a luta pela restauração da natureza e da sociedade ao seu estatuto anterior, “a luta, portanto, contra o indivíduo humano, contra a alma, contra a consciência autônoma”.

O catolicismo foi a exteriorização do cristianismo para ocupar o vazio religioso da Europa barbarizada, foi a adaptação do cristianismo ao poder temporal, a romanização da Igreja com a sua conseqüente contaminação pelo gnosticismo, mostrando sua inaptidão para o poder terreno. A Igreja conquista o mundo, mas deixa-se conquistar em parte por ele. O eixo vertical finalmente é derrubado e a luta humana passa ao eixo horizontal, a luta entre o espírito da sociedade política e o culto das forças materiais do cosmos. “A dimensão sóciocósmica pretende subjugar, engolir e eliminar a dimensão espiritual e metafísica”.

“Aparece aí, com toda clareza, o tema dominante de todos os conflitos de idéias no Ocidente desde o Renascimento. Derrubado o eixo vertical, o horizontal não pode permanecer de pé, pois não há entre os dois termos a desigualdade flagrante que há entre o indivíduo humano e Deus: história e mundo, cultura e natureza, valor e fato, jamais podem chegar a um acordo senão tomando como fiel da balança a vertical que aponta, para cima, a esfera das leis metafísicas, os limites do possível e do impossível, e, para baixo, os desejos e aspirações da alma humana singular. Retirados de cena a alma e o Absoluto, resta apenas o combate de Leviatã e Beemoth, o espírito da rebelião autolátrica que comada a História, o espírito da submissão cega e mecânica à natureza exterior.”

A Religião do Império

Foi Conte que pela primeira vez descreveu a proposta de um novo culto, de uma nova religião em que desaparecia à relação com o divino. Os pontos básicos eram:

– Seria uma religião do Estado;
– Um novo calendário com apenas as datas civis
– Predomínio da ciência-técnica

O tempo seria divinizado através do culto aos antepassados, a fusão da lei religiosa com a lei civil e a ideologia do progresso. Tirando o Brasil, nenhum país adotaria integralmente o positivismo. Alguns itens, como o calendário civil seria adotados por todos os países como forma de diminuir a importância dos religiosos.

Para Olavo de Carvalho, a história política do ocidente seria a luta pelo direito de sucessão do Império Romano. A grande pergunta seria como restaurar o Império sem uma religião estatal? Por muito tempo o conflito foi entre o sacerdócio e a realeza, até que a Revolução Francesa o colocasse sobre novos patamares.

Inicialmente, o clero dispunha do poder na Europa barbarizada mas estava preso pelo celibato, como construir uma dinastia para governar o mundo? A solução inicial foi aliar-se à realeza buscando uma aliança com nobres que se dispusessem a seguir a orientação espiritual da Igreja o que levou à primeira tentativa de re-estabelecimento do Império com Carlos Magno. Entretanto, o sonho do Império Cristão se desfez com a sucessão e desmembramento.

A segunda Roma Imperial foi fundada por um pacto entre um Papa, João XII e um rei, Otto I, originando o Sacro Império Romano. Seria a segunda translação do modelo imperial. Concebido para ser o braço armado da Igreja, na prática passou quase um século às turras com o papado. Durante a maior parte de sua existência, não passou de um aglomerado de principados e ducados independentes e mutualmente hostis.

A terceira forma de tentativa de restauração do império se deu pelo colonialismo. O Império doméstico era substituído pelo Império Colonial que trazia consigo três mudanças profundas:

– A multiplicação dos concorrentes a Império;
– A alteração profunda entre realeza e clero;
– A diversificação das culturas nacionais e a ruptura da unidade cristã.

A luta passa a ser entre o internacionalismo, representado pelo papa e remanescentes do antigo Império e o nacionalismo imperial das novas potências. A idéia da religião como uma instância superior ao poder temperal é substituída por um conflito entre legislativo e executivo, um conflito que nunca terminará justamente por ausência desta superioridade, um conflito que sempre terá um único resultado possível, o fortalecimento ilimitado do poder.

No conflito entre o rei e a lei, os ingleses bolaram o parlamentarismo onde o rei exercia um poder divino mas conferido pelo legislativo que por ser expressão da vontade do povo tornava-se automaticamente um corpo místico pois a vontade do povo era a voz de Deus. O rei autodivinizado é o estágio necessário para que as idéias de Maquiavel pudessem ser aplicadas e a razão do Estado se tornasse prática generalizada. Assim nasceu o Estado moderno, através da apropriação por nações ambiciosas do sonho imperial através de uma falsa consciência religiosa.

Com a revolução francesa, surge Napoleão, que realiza uma nova tentativa de translação da idéia do império, agora dispensando toda a legitimação religiosa, mesmo que farsesca. O Império era a única divindade, César é maior que Cristo. É o primeiro império não-cristão do Ocidente. Todo o cristianismo residual deveria ser absorvido e laicizado na forma de “direitos e deveres do cidadão”. Napoleão foi incapaz de construir esta realidade pois procurou conservar a estrutura de poder do antigo regime, uma aristocracia militar e hereditária. Este foi o seu fim. O novo estado leigo não poderia se sustentar na hereditariedade, na aristocracia de sangue, nos resquícios do feudalismo.

“O Império leigo não podia ter um resíduo sequer de compromisso com a Igreja, nem, por isso mesmo, com as velhas aristocracias. Ele necessitava apoiar-se numa nova classe social, numa nova estrutura de poder, numa instituição religiosa que fosse intrinsecamente ligada ao Estado: César só poderia ressuscitar sob a forma capitalista, republicana, maçônica e protestante. República imperial, capitalista, maçônica e protestante: é a definição dos Estados Unidos”.

O Império Contra-Ataca

A dificuldade das nações européias em entender que estavam diante do crescimento de um novo império deveu-se principalmente ao caráter totalmente diferente da evolução americana. Em primeiro lugar, surgira de uma revolução anti-imperialista. Em segundo lugar, era democrática, com extensas discussões parlamentares; era impossível imaginar uma política imperial sem um Imperador autocrático. Em terceiro lugar, não havia uma política imperial e contínua. Em quarto lugar, os EUA eram também uma nação capitalista. Os interesses privados eram, na maior parte dos casos, contrários ao expansionismo do Estado, preferindo a penetração comercial às intervenções militares.

Tratava-se de uma mutação da idéia imperial, mas um disfarce perfeito para seus reais objetivos. Era um império leigo que incorporava de forma laicizada e desespiritualizada os valores cristãos, assumindo o encargo de substituir a Igreja na vida interior das gentes, e de unificar sob a nova religião laica o mundo Ocidental e se possível, o Oriente.

A religião do Novo Mundo é maçônica. Desde a declaração da independência que ninguém faz carreira política nas três Américas sem ter de entrar na Maçonaria, prestar satisfações a ela ou enfrentá-la. A aristocracia não deixa de existir com o novo império, mas sofre uma gigantesca reciclagem tornando-se não uma classe, mas uma casta. Seus traços:

– substituição das antigas aristocracias de sangue pela nova aristocracia iniciática;
– caráter secreto ou pelo menos discreto do novo poder aristocrático;
– formidável concentração do poder do dominador, aliada a uma não menos formidável expansão dos direitos nominais do dominado.

A democracia esconde na verdade uma luta interna no seio de uma casta aristocrática, cuja unidade espiritual repousa nas mãos de um novo sacerdócio. Todos os conflitos abertos, todas as disputas travadas diante o público, não passam de exteriorização das divergências nascidas e elaboradas dentro da Maçonaria.

Outra característica fundamental para entender os Estados Unidos é o fato de ser uma República protestante, que significa, em última instância, o Estado Leigo, Estado sem Religião oficial. Os Estados Unidos são o primeiro Estado professadamente a-religioso da História. Um Estado que se coloca acima das religiões, árbitro de suas disputas, que julga sem ser julgado, sem prestar satisfação senão ao Deus encarnado na “vontade popular”: vox populi, vox Dei.

A religião deixa de ser o princípio organizador da conduta humana pois os princípios religiosos só é possível na medida em que não entra em conflito com as leis civis. É a vitória da “Teologia Civil” trazendo junto a “espiritualidade civil”. O resultado é a extraordinária expansão do ateísmo no mundo.

Olavo percorre as características do império americano e sua expansão cultural pelo mundo até retornar ao ponto inicial de seu livro: o retorno ao MASP e o ingresso no Jardim das Aflições.

Na Borda do Mundo

No capítulo final e na conclusão, Olavo faz a ligação do ressurgimento do César e do Império Romano com a situação política e cultural brasileira. O país não está isolado do conflito de forças que existe no mundo e que tem seu epicentro nos Estados Unidos, o conflito entre o Leviatã e Beemoth e o consequente esquecimento do eixo vertical da cruz, da ligação da alma com Deus.

Um livro denso e pesado, com uma análise apurada dos vários movimentos que marcaram a modernidade e seus reflexos nos dias atuais. Uma daquelas obras que transformam a forma com que vemos o mundo, abrindo campos e mais campos para reflexão e observação. Um livro que deixa aquele gosto que há algo de profundamente errado com o mundo e a grande pergunta que fica é até que ponto esta situação pode ser revertida pelo homem.

 

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