A dialética do conhecimento

Por Ivan Pessoa

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Tomar uma ideia como se fosse genuinamente sua é o único critério hermenêutica para uma compreensão efetiva, processo que, quando plenamente realizado, revela certa grandeza ética ou interpessoal. Empreendê-la demanda um monólogo interior e um diálogo posterior, capaz de apresentar consentimento, correção ou recusa.

Portanto, o processo mesmo do conhecimento se dá nesse crescendo que, ao brotar interiormente, amadurece até sua plena exterioridade em um diálogo. Deste modo, sem diálogo (esse encontro de almas) o conhecimento é uma quimera. Vinte anos foram suficientes para que Montesquieu enfim concluísse sua maior obra: “O Espírito das Leis“, e vislumbrasse suas deficiências em um diálogo. Na perspectiva de apresentá-la aos amigos Fontenelle, Helvetius e outros igualmente eruditos, a recusa foi unânime: “Não publique esta obra!” Como a própria história das ideias nos prova, todos se equivocaram, entretanto, por parte de Montesquieu – por mais que fossem pungentes – todas as observações foram incorporadas.


Tal exemplo serve à seguinte reflexão, reportando-nos sobretudo à atualidade brasileira: em que medida pode haver vida intelectual, ou mesmo vida acadêmica, se tudo em volta é sectário e professoral; indiferente à proximidade interpessoal, frequente em um diálogo? Como se pode publicar grandes obras, quando a indisponibilidade ao diálogo encerra qualquer crítica à lá Fontenelle, Helvetius? Se o talento de Proust foi questionado por André Gide, por parecer-lhe carregado de subjuntivos, à maneira da recusa de Tourgueniev para com Guy de Maupassant, segundo o qual, nunca teria talento – como contemplar uma formação superior sem críticas e correções pessoalmente encaminhadas que, quando incorporadas, aprimoram as ideias em questão? Em um ambiente em que as ideias (quando tomadas) são compartimentadas em escolas, modas, artigos, cacoetes e departamentos, nenhum progresso intelectual se pode vislumbrar, com efeito, só pode haver tal progresso se houver diálogo, contrariedade e refutações. Dimensionar a pessoa em um diálogo – por mais defunto que seja o autor – é o único critério efetivamente promissor para a aquisição de conhecimento; processo que se encaminha para a tomada súbita de consciência. ‘Torna-te melhor do que já és‘, encerra toda a questão, no entanto, como promovê-la sem o encontro de almas?

P.S: O processo do conhecimento, por ser dialético, é ascendente; cresce interiormente até uma suprema intuição sobre a realidade. No Brasil atual, desde as Universidades, a recusa e refutação a uma ideia quase sempre extravasa seus propósitos dialéticos, tomadas imediatamente como questões pessoais. Corrija alguém (em público), e, em privado, o terás como inimigo. Uma máxima em latim adverte: ‘O curvae in terram animae et coelestium inanes‘/’Almas curvadas para a terra, e esvaziadas de todo o celeste.’

O que conhece desta vida, aquele que caminha mirando os próprios pés?

 

 

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Postado originalmente aqui.

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