Análise às análises de debates políticos

Por Mário Chainho

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As análises que se fazem aos debates políticos, sobretudo os mais mediáticos, são tão ou mais importantes que os mesmos. Elas condicionam fortemente as apreciações do que teria acontecido nos debates, e começam a logo a fazer isso por antecipação, com o comentários sobre o que os candidatos supostamente dirão e que posturas irão adoptar.

Há quatro formas genéricas de analisar um debate: (1) análise ao nível das propostas; (2) análise ao nível do confronto pessoal; (3) análise ao nível da eficácia dos debatedores face ao público; (4) análise ao nível da personalidade dos envolvidos. Em geral, as análises puras são raras, e os comentadores optam por uma mistura de cada uma destas variantes, mas quase sempre colocam uma ênfase maior num dos tipos. Cada uma delas tem os seus méritos e deméritos, obviamente.

1. Análise da racionalidade dos discursos – Este tipo de análise é considerado o mais sério e credível, porque vai directo ao “conteúdo” e presta pouca atenção as “detalhes irrelevantes” ou ao “ruído de fundo”. Claro que é possível enviesar tanto uma “análise de conteúdo” até ela se transformar num culto da personalidade ou numa destruição de carácter encapotados. Mas vejamos as análises que realmente se focam nas propostas e nas ideias dos debatedores. Sem dúvida que as análises deste tipo requerem uma preparação técnica grande e um conhecimento dos assuntos com alguma profundidade. Mesmo quando existe um forte enviesamento ideológico nestas análises, é necessário uma boa preparação para conseguir enquadrar as propostas concretas de acordo com os parâmetros de análise da ideologia.

Os próprios méritos deste tipo de análise acabam por fazer sobressair as suas limitações. A análise pode se prolongar indefinidamente, tornando-se cada vez mais técnica ou ideológica. Assim, acaba por ser feita abstracção das pessoas que lançaram as ideias. É bastante tentador chegar a uma visão em que parece que são as ideias que usam as pessoas para se continuar propagando. Este aspecto existe de alguma forma, pois nenhum político é um criador de ideias, limitando-se a escolher umas, mas a análise da experiência real não pode ser feita retirando o elemento decisório do ser humano. Ou seja, nós podemos inserir os políticos em certas correntes (globalismo, socialismo, movimento revolucionário, conservadorismo, liberalismo, reaccionarismo), mas mesmo que isso seja acertado, dá apenas uma vaga ideia do que eles farão concretamente se chegarem ao poder.

Outro defeito frequente deste tipo de análise está numa excessiva ênfase ‘valorativa’, como se nada mais importasse: as ideias e propostas são boas ou más, úteis ou inúteis, benéficas ou prejudiciais. É novamente um problema de falta de atenção aos factos concretos. Em primeiro lugar, falta verificar se os políticos estão realmente propondo aquelas coisas ou se apenas as defendem para efeitos de propaganda. Em segundo lugar, partindo do princípio de que os políticos querem implementar aquilo que propõem, aquelas coisas são realmente exequíveis? Quais as dificuldades que eles enfrentariam? Aquilo já foi implementado em mais algum sítio? Se sim, quais foram os resultados obtidos? É possível reproduzir os bons resultados ou evitar que anteriores maus resultados se verifiquem? Se for uma coisa nunca experimentada, quais são os argumentos credíveis para defender a implementação daquilo? A estas e a muitas outras questões o analista sério seria obrigado a dizer muitas vezes “não sei”, “talvez”, “depende”. As pessoas que mandam
nos jornais e canais de televisão não gostam deste tipo de análise, justificando que o público não iria compreender ou apreciar, mas na verdade o que eles temem é perder poder de influência no público.

Não existe uma verdadeira análise de um debate sem um exame mínimo do seu conteúdo. No pior dos casos, haverá que dizer que os candidatos não apresentaram quaisquer propostas ou ideias que não passem de propaganda vazia, por isso não há nada que analisar. Mas por mais séria que seja uma pura análise da racionalidade do discurso, ela sofre sempre da mácula de analisar apenas uma parte do conteúdo do debate. Por isso existem outros tipos de análise.

2. Análise ao nível do confronto pessoal – Este tipo de análise tem se tornado cada vez mais popular. Todos os comentadores, jornais e sites informativos parecem sobretudo preocupados em saber “quem ganhou o debate”. Estas análises podem ser feitas antes ou depois de saírem as primeiros inquéritos. E estes podem sair altamente distorcidas dado terem um público alvo de utilizadores que maioritariamente já estão de um lado de um candidato. Mesmo aqueles que acham que o seu candidato esteve mal no debate sabem que o importante é dizer que ele esteve melhor, porque isto pode induzir outros menos atentos a achar o mesmo.

Este tipo de análise, que pressupõe o debate semelhante a uma competição desportiva, impõe-se quase como uma necessidade face às limitações de uma análise estrita dos argumentos. Mesmo que todas as propostas de um candidato sejam melhores que as do adversário, ele pode ainda assim perder o debate, dado não conseguir impor os seus pontos de vista. Portanto, não existe apenas um confronto entre propostas e ideias mas existe também um confronto entre pessoas.

Este tipo de análise baseia-se numa analogia entre o debate e um combate de boxe. Nos dois casos existem dois debatedores, um “juíz” e um público. Este tipo de analogia permite também fazer certos comentários metafóricos muito ao gosto de alguns comentadores: “O candidato X atacou o ponto fraco do adversário”; “O candidato Y encostou o adversário às cordas”; “O candidato X venceu aos pontos”; “O candidato Y foi derrotado por KO”. A análise do confronto pessoas não está totalmente desligada da modalidade anterior. A diferença é que os argumentos de cada lado já não são analisados friamente mas são visto em termos de eficácia. Os argumentos tinham força? O candidato defendeu os seus pontos de vista com convicção? A argumentação de um conseguiu sobrepor-se à do outro? Isto pode ser levado ao ponto dos analistas elogiarem frases sem qualquer conteúdo apenas porque “pareceram bem”. O actual presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, fez toda a sua carreira de comentador político nesta base.

A desvantagem deste tipo de análise está não apenas na desvalorização do conteúdo mas numa falha grave na analogia entre um debate e um combate de boxe. Não se trata de uma falha ao nível do árbitro/moderador. Hoje muitos suspeitam que os moderadores dos debates podem não apenas ter preferências com um dos candidatos mas que chegam mesmo a combinar estratégias com estes. Contudo, isto é perfeitamente análogo à corrupção que existe no desporto com a arbitragem. A falha está ao nível do papel do público e da forma como é decidida a vitória.

Num combate de boxe, o público pode se manifestar efusivamente, o que pode ter alguma influência nos lutadores, mas o que decide o combate é o dano efectivo que os atletas infligem um no outro. O resultado será depois sancionado pelo árbitro ou por um colectivo de juízes, mas em geral tem uma validade objectiva que pode ser comparada com aquilo que aconteceu no combate. Contudo, num debate político o que conta não é o dano efectivo que os debatedores infligiram um no outro mas o dano que foi percebido pelo público. Conta acima de tudo a impressão que os políticos transmitiram directamente ao público. Na verdade, a melhor analogia para um debate político seria uma mistura entre combate de boxe e passagem de modelos, com todo o tratamento de imagem envolvido.

O público deve ser visto em dois níveis. Existe um público que está presente no lugar onde se realiza o debate, que recebe os dados de forma directa, mas também é influenciado por mecanismos de grupo, onde se incluem profissionais que servem de gatilho para despoletar certas reacções. E existe o público em casa, que é um colectivo de indivíduos que não sabem o que os outros pensam. A maioria do público de casa pode seguir as reacções do público no estúdio ou seguir aquilo que dizem os primeiros comentadores, mas também pode ir por um caminho totalmente diverso. Por exemplo, o público no estúdio pode ter visto um candidato sem força a ser massacrado por um adversário decidido e enérgico, mas a maioria em casa pode ter visto um candidato sereno estando acima da estupidez do outro candidato. Um político pode também decidir ter uma derrota controlada num debate, em que não chega a perder o seu eleitorado mas conquista alguns indecisos ao ter mostrado uma nova faceta.

Apesar de tudo isto, este tipo de análise não é para ser totalmente descartado, porque realmente existem momentos em que os políticos decidem se enfrentar pessoalmente e tentam ganhar pontos com isso. Mas se um debate permanece quase sempre nesta toada, torna-se muito agressivo e ambos os debatedores perdem credibilidade. Por isso, esta é uma estratégia usada por candidatos fracos, que tentam nivelar tudo pela baixaria, onde as hipóteses deles tornam-se muito mais favoráveis. Muitos comentadores gostam de tentar descobrir a razão de certos candidatos, aparentemente, terem perdido iniciativa a partir de certa altura do debate. Então, encontram uma explicação mágica: ele foi provocado pelo outro candidato, ficou afectado, perdeu a calma, a lucidez e não se conseguiu mais encontrar. Esta é uma imagem tirada dos desportos de combate, em que um atleta fica afectado por um golpe, e tenta disfarçar, mas aquilo permanece e acaba frequentemente por ditar a derrota. Coisas deste género também acontecem em política, apesar de os candidatos aos postos importantes prepararem-se exaustivamente para todo o tipo de perguntas, comentários e insinuações. Contudo, há muito mais razões para um político ficar aparentemente apático num debate. Por exemplo, em relação a certas matérias o candidato percebe que as suas ideias são demasiado chocantes ou incompreensíveis para a maioria do público, por isso, prefere ficar calado ou dizer umas frases evasivas. Se for um político de gema, ele não hesitará em afirmar o contrário do que pensa apenas para parecer bem.

3. Análise do nível da eficácia junto ao público – Este é o nível de análise mais difícil, sendo também a mais especulativo e a mais “científica” ao mesmo tempo. A maior parte das pessoas apenas pode especular sobre qual foi a percepção de um público alargado, porque é necessário um grande número de dados. Hoje em dia já se fazem sondagens estratificadas das mais diversas formas para tentar perceber o impacto que os debatedores tiveram nos mais diversos públicos. As máquinas partidárias com elevados recursos podem estudar isto ao detalhe, ao ponto de tornar a eleição de um político quase numa actividade científica. O próprio desinteresse pela política pode ser estimulado. Muitas vezes os políticos já desistiram de cativar certo tipo de eleitores (certas idades, raças, ou pessoas que vivem em certas regiões) e apostam tudo onde têm hipóteses.

Os comentadores que não dão atenção para este aspecto do debate político ou não sérios ou são simplesmente inaptos. Só a partir deste ponto o debate começa a ser visto como um fenómeno real. A ausência da ênfase sobre o impacto real no público coloca os cidadãos numa grande desvantagem em relação a partidos e e grupos poderosos atrás de políticos. Porque estes sabem quase tudo sobre os eleitores, que pouco sabem sobre si mesmos como grupo.

4. Análise da personalidade dos políticos – A política ainda depende fortemente da impressão pessoal que as pessoas têm dos candidatos. Independentemente das ideias que aquela pessoa parece defender, ela é séria? Está bem intencionada? Tem capacidade de liderança? Preocupa-se com as pessoas? Pretende fazer grandes coisas? Tem coragem para enfrentar os desafios? No geral, esta pessoa é de confiança?

Na Roma antiga, aqueles que começavam uma carreira pública tinham vantagem se pertencessem a uma família ilustre. Como ainda não tinham grandes feitos para mostrar, a ideia era que se eles tivessem antepassados que se tivessem destacado como cônsules ou generais, por exemplo, seria de esperar que algumas dessas qualidades estivessem presentes naquele descendente. Hoje existe uma ideia um pouco mais ingénua: um político herda qualidades da sua família política, que é o partido do qual faz parte. Além, disso, foi também enormemente desenvolvida a “relação directa” entre o político e cada cidadão. Através de gestos, olhares e certos tons de voz, cria-se a impressão de que o político está falando directamente para a pessoa. Quando dois candidatos se enfrentam, também é possível um deles adoptar um tom condescendente para com o adversário, como se estivesse falando com um adolescente irresponsável. Por incrível que pareça, muita gente deixasse convencer mais facilmente por este tipo de manobras do que pela argumentação mais cuidada.

Postado originalmente aqui.

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