A Fundação do Estado de Israel

O Estado de Israel foi fundado em 1948 com a aprovação das Nações Unidas. Atualmente, os inimigos de Israel insistem em desafiar a legitimidade de sua existência. Então, pelas leis internacionais, quem está certo? Israel ou seus inimigos?

A discussão do próprio contexto tem de ter um ponto de partida. Comecemos então pela autodeterminação do povo judeu, o movimento legítimo para conseguir uma entidade estatal independente em sua pátria histórica.

O que começou como uma mera ideia em meados do século XIX motivou, no começo do século XX, milhares de judeus da Europa e do Oriente Médio a deixarem seus lares para se estabelecerem na Palestina.

A raiz do movimento de autodeterminação reside no casamento das ideias nacionalistas modernas com o milenar apego do povo judeu à terra de Israel (Eretz Yisrael). Essa energia sustentou a Yishuv, ou comunidade judaica, na Palestina, contra os estragos causados pelo domínio otomano e, mais tarde, a Primeira Guerra Mundial, quando líderes judeus foram expulsos como estrangeiros inimigos (a maioria russos). No fim da guerra, os britânicos, que haviam derrotado os turcos na Palestina, se comprometeram por meio da declaração de Balfour com a construção de uma pátria nacional judia no país.

A Yishuv era uma central energia em plena construção: dinâmica e inventiva, política e ideologicamente pluralista. Ela saiu vitoriosa dos diversos conflitos que culminaram na violenta revolta árabe de 1936 contra judeus de britânicos mas a vitória foi negada aos judeus: temerosos de uma revolta muçulmana que incendiasse todo Império, os britânicos divulgaram o infame Livro Branco, que, para todos os efeitos práticos, anulava a Declaração Balfour. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o líder David Ben-Gurion declarou que seu movimento tinha a intenção de “combater o Livro Branco como se não houvesse guerra e combater na guerra como se não houvesse Livro Branco”. [1]

Em contraste, Hajj Amim al-Husayni, O Mufti, designado pelos britânicos e autoproclamado representante dos árabes palestinos, atou seu destino ao de Hitler. [2]

Astutamente, os britânicos tiraram partido da neutralização do movimento de autodeterminação durante a guerra para aplacar o nacionalismo árabe, incentivando a criação de uma Liga Árabe, cujo membros pudessem ao mesmo tempo exibir sua unidade e preservar sua independência. Assegurada a vitória na Europa, porém, o movimento de autodeterminação veio cobrar sua desforra. Exasperados com a continuidade do Livro Branco e inflamados pelos seis milhões de vítimas do Holocausto, muitas das quais talvez estivessem vivas se tal documento não houvesse existido, seus líderes declararam guerra ao Mandato. [3]

Exaurida pela guerra e pressionada por um presidente norte-americano, Harry Truman, publicamente adepto a causa de autodeterminação do povo judeu, a Grã-Bretanha estava, em 1947, pronta para passar a questão palestina às mãos das Nações Unidas. O resultado foi a aprovação da Resolução 181 da Assembléia Geral, que estabeleceu a criação de dois Estados, um árabe e outro judeu, na Palestina, e um regime internacional para Jerusalém. No dia seguinte à aprovação, 30 de novembro de 1947, terroristas palestinos atacaram assentamentos judeus em todo o país e bloquearam as estradas que os comunicavam.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos, que não morria de amores pelo sonho de autodeterminação e era profundo adversário da partilha, liderou a elaboração de um plano internacional de administração da Palestina. Foram aventadas propostas de um Estado binacional árabe-judeu e de uma federação árabe na qual os judeus desfrutassem de autonomia local [4][5][6].

Mas nenhuma dessas iniciativas vingou e, quando em 14 de maio encerrou-se o Mandato Britânico, o Estado Judeu foi declarado. Daí em diante, os judeus eram israelenses.
Foi nesse dia que a luta civil que latejava desde novembro explodiu num choque regional entre Israel e os cinco países árabes mais próximos. A Síria e o Iraque, sempre os mais truculentos entre os adversários, lideraram a invasão, seguidos pelo Líbano e a Transjordânia. Temendo a expansão territorial de outros Estados árabes, o Egito não pode resistir ao impulso de se juntar. Milhares de soldados, apoiados por bombardeiros, aviões de combate e tanques, se lançaram à frente no que foi arrogantemente descrito como “uma ação policial”.

No outono de 1948, as recém-constituídas Forças de Defesa de Israel (IDF) heroicamente conseguiram furar o bloqueio árabe de Jerusalém e enfrentar a Legião Árabe da Transjordânia, sob comando britânico, senão até a vitória, pelo menos até um empate forçado. Foram também bloqueados os avanços sírios no norte e a incursão iraquiana ao coração do país. Mas o maior ímpeto de combate da força militar israelense teve como alvo o Egito, o maior contingente árabe. As forças egípcias foram expulsas dos arredores de Jerusalém e Tel Aviv e para fora do Negev, à exceção de um punhado de homens que resistiram até o início de 1949, quando o Cairo pediu um armistício.

A Guerra da Independência terminara. Contra o que parecia ser impossível, jovens comandantes, como Yigal Allon e Yitzhak Rabin, obtiveram uma prodigiosa vitória militar, mas a um custo excessivamente elevado. Seiscentos judeus haviam sido mortos – um por cento da população – e um grande número de povoados bombardeados e dizimados. Apesar dos repetidos investidas das tropas da IDF, a Cidade Velha de Jerusalém permaneceu em mãos hachemitas, assim como o Corredor de Latrun, que lhe dava acesso. A Legião Árabe também expulsou os assentamentos judeus de Etzion Bloc, na periferia de Belém, e ocupou a Cisjordânia. A Síria, por sua vez, se manteve na posse das terras situadas além da fronteira internacional. A totalidade dos principais centros urbanos e industriais de Israel estava facilmente ao alcance da artilharia de um ou outros dos exércitos árabes. Em seu ponto mais estreito, o país não tinha mais do que quinze quilômetros de largura, e era portanto facilmente separável em duas partes por um ataque jordaniano ou iraquiano desde o leste, sem nenhum recuo possível a não ser para o mar.

As perdas e os ganhos da vitória, junto com o trauma histórico acumulado dos judeus, criaram entre os israelenses uma ambiguidade: uma confiança excessiva em sua invencibilidade ao lado de um sentimento igualmente exagerado de catástrofe iminente. Ao mesmo tempo que aparentavam ao Ocidente como Davis mal-armados em luta contra gigantes filisteus, em razão de sua fé inabalável, os israelenses se viam como um gigante de força incalculável frente aos inimigos árabes. Durante sua primeira visita a Washington como chefe do Estado-Maior do IDF, em novembro de 1953, o famoso General Moshe Dayan disse aos representantes do Pentágono que Israel enfrentava um perigo mortal e, logo em seguida, que era capaz de esmagar todas as forças árabes combinadas em poucas semanas. [8]

Entre os árabes, porém, esse tipo de contradição não se manifestava. Para eles, a guerra de 1948 fora al-Nakbah, “O desastre”, e um desastre consumado. Os desfiles da vitória realizados no Cairo e em Damasco não foram capazes de esconder o fato de que os Estados Árabes haviam fracassado em seus primeiro teste pós-colonial. A anexação da Margem Ocidental (Cisjordânia) pela Transjordânia (instalado em ambos os lados do rio, o pais logo renunciaria ao “Trans”) e a ocupação egípcia de Faza apenas assinalavam a perda palestina de um Estado que deveria conter ambos os territórios. A derrota pelas mãos de um estado judeu relativamente pequeno e antes desacreditado apenas duplicou a humilhação. [8]

Uma derrota assim não podia produzir heróis, somente soldados amargurados, como Gamal Abdel Nasser, um dos jovens oficiais que haviam resistido no bolsão do Negev e que agora queriam se vingar não apenas de Israel, mas dos ineptos governantes árabes.

Referências:

[1] Francis R. Nicosia, The Third Reich and The Palestine Question (London: I. B. Tauris, 1985), pp 177-178.
[2] Lukasz Hirszowicz, The Third Reich and the Arab East (London: Routledge & K. Paul, 1966), pp 71, 95, 248.
[3] David Vital, The Origins of Zionism: The Formulative Years (Oxford: Oxford University Press, 1982).
[4] Mary C. Wilson, The King Abdullah, Britain and the Making of Jordan (Cambridge: Cambridge University Press, 1987) pp. 151-186
[5] Ilan Pappe, Britain and the Arab-Israel Conflict, 1948-1951 (London: Macmillan, 1988).
[6] Roger Louis, The British Empire in the Middle East, 1945-1951: Arab Nationalism, the United States, and Postwar Imperialism (Oxford: Oxford University Press, 1984), pp 381-574.
[7] J. L. Talmon, The Six Days’ War in Historical Perspective (Rehovot, Israel: Yad Chaim Weizmann, 1969), p. 78.
[8] Benny Morris, The Birth of the Palestinian Refugee Problem (Cambridge: Cambridge University Press), pp. 20-23.

Tradução do vídeo e artigo: Renan Poço
Revisão do vídeo: Felipe G. Duarte

Vídeo legendado no YouTube: https://youtu.be/pkLcZIUeTPY
Vídeo Original: https://youtu.be/12KJa4a0d64

Postado originalmente aqui.

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