Educação Clássica e Homeschooling

Por Rafael Fálcon

A verdadeira educação clássica tem requisitos que as escolas modernas são incapazes de satisfazer. Só o homeschooling pode atender às exigências espirituais da tradição antiga, medieval e renascentista.

Palestra  que foi proferida na Global Home Education Conference 2016.

Não falo, evidentemente, do que vem sendo chamado de “educação clássica” ou “educação liberal” pelos norte-americanos — a primeira expressão se refere a uma teoria pedagógica de Dorothy Sayers, e a segunda, aos projetos inspirados por Mortimer Adler. Ambas as doutrinas possuem importância própria, especialmente como tentativas de recuperar alguma sanidade na pedagogia moderna, mas não refletem nem de longe o que era feito no verdadeiro sistema das artes liberais. As diferenças são numerosas demais para que eu as cubra neste artigo; um princípio, porém, que talvez explique muitas delas é justamente o fator que lhes permite a aplicação nas escolas modernas, separando-as portanto da pedagogia antiga. Chamarei esse princípio de “estrutura maquinal”.

A “estrutura maquinal” se manifesta na obsessão moderna por currículos, cronogramas, metas, manuais com exercícios pré-prontos, etc. O prestígio do professor é transferido para livros, computadores ou — o que é muito pior — instituições de ensino, que nada mais fazem do que conglomerar professores sob o comando de burocratas. As tentativas modernas de recuperar a “educação clássica” sofrem, justamente, de preconceitos derivados dessa estrutura maquinal, os quais geralmente são considerados “avanços” que não devem ser “perdidos”.

Em termos claros: educação, no espírito clássico, é a relação entre um ser humano adulto e um jovem, em que o adulto examina cuidadosamente todos os meios convenientes pelos quais o jovem pode ser levado à perfeição do seu ser individual. Assim sendo, o papel do sistema teórico, dos livros, e mais ainda o das instituições envolvidas, é o de facilitar o trabalho do mentor; e no momento mesmo em que esses instrumentos começam a substituir o juízo humano, desejando impor determinados meios numa ordem fixa, sabemos que nosso espírito se tornou incompatível com a tradição clássica. Nenhum currículo, nenhuma imitação de aspectos superficiais da tradição pode fazer grande diferença nessas condições.

Mais ainda: o princípio da educação clássica é o amor, espécie de paternidade espiritual, entre dois seres humanos, um velho, o outro jovem; mas só se ama o que se conhece, e a estrutura escolar moderna é montada para que os professores e alunos não possam conhecer-se, muito menos amar-se uns aos outros. A tendência inexorável é a de burocratizar as instituições educacionais, transformando professores em “funcionários” e alunos em “beneficiários” — isto é, reduzindo-os a papéis abstratos que prescindem da manifestação de suas personalidades integrais, e chegam mesmo a proibi-la.

Ora, se as escolas (e universidades) se tornaram ambientes necessariamente anti-educativos, o único lugar em que resta a possibilidade do diálogo amoroso entre professor e aluno é a sua própria casa — já que, ao menos por enquanto, não tentam regular o que se faz nela. Isso pressupõe, naturalmente, a presença de instrutores particulares e especializados, quando o assunto o exigir: mas os diretores da educação, aqueles que decidem a quem e quando entregar as crianças, serão aqueles que as conhecem como ninguém, e que possuem mais condições de amá-las do que qualquer pretensioso diplomado. Assim é que os aspectos técnicos e instrumentais, inclusive os professores, se submetem novamente à finalidade real da educação.

O ensino domiciliar é o único, portanto, que oferece, neste momento, alguma chance de produzir seres humanos completos, livres e intelectualmente desenvolvidos. Toda intromissão da instituição escolar, seja ela política, ideológica ou pedagógica, será um mal a ser evitado. Que o ambiente doméstico se pareça o mínimo possível às escolas modernas, e que seja dotado de uma intensa busca pela perfeição intelectual e existencial, são as exigências para que o homeschoolingcumpra o papel intransferível de formar a futura inteligência do Ocidente. Só ele nos dá esperança de que, inspirados pelo seu sucesso, os homens do futuro decidam remover as amarras burocráticas das escolas, tornando-as novamente centros de educação.

Postado originalmente aqui.

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