A Beleza como valor universal

Na contramão do que vem sendo produzido em grande parte do meio artístico na atualidade, o filósofo inglês Roger Scruton clama pela retomada da beleza como critério universal.

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A estética é o ramo da Filosofia- a que, entre outros temas, ocupa-se do belo. Contudo, e como muitos – inclusive pessoas sem conhecimento específico de estética ou de técnica artística – têm observado, um curioso fenômeno vem ocorrendo nos últimos 150 anos: o conceito de obra de Arte (outro tema do qual a Estética trata) se estendeu consideravelmente: tijolos, camas desarrumadas, mictórios, copos são considerados obras de Arte pela comunidade especializada, expostos em museus e alvo de olhares tanto admirados quanto espantados. Seja qual for a nova definição de obra de Arte, ela certamente não inclui a beleza como critério indispensável e eliminatório.

Não é isso, porém, que pensa o filósofo inglês Roger Scruton (1944). Ele, que se dedica a essa questão, faz apologia da beleza e clama pela retomada do belo. E faz isso especialmente em duas de suas obras: um documentário encomendado pela BBC, Why Beauty Matters? e o livro Beauty. Para sustentar sua posição, Scruton remete-se a uma longínqua tradição de filósofos: vai de Platão a Kant, passando pelo conde de Shaftesbury, que influenciou o pensamento de Kant. Também relembra que o objetivo da Arte, seja ela expressa em Poesia, Música, Artes Plásticas e até mesmo Arquitetura, para qualquer pessoa letrada que viveu entre os séculos XVII e XIX era a busca da beleza, um valor, segundo o filósofo, universal, equivalente ao bem e à verdade. É importante destacar essa lembrança, tendo em vista que Scruton é um pensador de matriz conservadora e pretende restabelecer parte da ordem de uma certa tradição..

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A reflexão proposta por Scruton é, como ele próprio enfatiza, estritamente filosófica. Poderia ter um viés tanto psicológico quanto evolucionista para explicar a estética, mas, como mostraremos no tópico “A beleza como inerente à natureza humana”, Scruton fundamenta sua concepção estética em termos exclusivamente filosóficos.

Um dos motes para exemplificar sua argumentação é o clássico Urinol do francês Marcel Duchamp (1887-1968). Duchamp assinou um Urinol com um nome fictício e o expôs como obra de Arte, inaugurando a tendência que é alvo da crítica de Scruton. A partir do século XX, assevera Scruton, a Arte deixou de buscar a beleza e passou a promover um culto à feiura, além de ter por objetivo a originalidade a todo custo. Tal tendência não se restringiu apenas às artes plásticas, mas também tomou conta da arquitetura4, que se tornou “desalmada e estéril”, o que, na avaliação de Scruton, explica a quantidade de prédios abandonados e depredados na Grã-Bretanha e a popularidade de pequenos comércios, instalados em prédios construídos nos moldes da arquitetura vitoriana. Em seu documentário, Scruton rememora, com saudosismo, a cidade onde nasceu, um típico vilarejo com construções vitorianas.

O filósofo inglês considera que vivemos em uma época egoísta, individualista ao extremo, em que cada um está ocupado exclusivamente em garantir o próprio prazer. Por mais de dois mil anos, segundo ele, a Arte serviu como remédio para os problemas da sociedade, uma maneira tanto de relatar como de escapar da infelicidade da vida cotidiana; atualmente, em vez disso, a beleza foi posta de lado e a Arte não serve de refúgio, mas dá suporte ao egoísmo dos nossos dias. Roger Scruton aponta o culto à feiura e o pragmatismo como as principais causas do problema.

Postado originalmente aqui.

 

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