Conservadorismo: os seis mandamentos de Russel Kirk

Por  Russel Kirk

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“O que é o conservadorismo?” Perguntou uma vez Abraham Lincoln: “Não é a aderência ao antigo e ao experimentado, em contraposição ao recente e ao não testado?” É isso, mas é mais.

 

Notas do Tradutor:Dentre os muitos escritos de Russel Kirk, há um livro intitulado The Conservative Mind: from Burke to Eliot (O Conservadorismo: de Burke a Eliot). O pensamento de Kirk foi essencial para que o Partido Republicano voltasse à Casa Branca no pós-guerra.  É leitura obrigatória para todo verdadeiro conservador e deve ser o fundamento de qualquer movimento conservador em qualquer parte do mundo, como já observou muitas vezes Olavo de Carvalho. Se o Brasil quiser um dia ter um movimento conservador, vai ter de se debruçar sobre esse e outros livros, antes da ação política propriamente dita. Traduzo um trecho do primeiro capítulo do livro, onde Kirk define, em linhas gerais, o que é uma conservative mind.

***

Qualquer conservador instruído é relutante em condensar profundos e intricados sistemas intelectuais em poucas frases pretensiosas; ele prefere deixar essa técnica ao entusiasmo dos radicais. O conservadorismo não é um corpo dogmático fixo e imutável; os conservadores herdaram de Burke um talento para re-expressar suas convicções de forma a adequá-las ao seu tempo. Como uma premissa de trabalho, contudo, pode-se observar aqui que a essência do conservadorismo social é a preservação das antigas tradições morais da humanidade. Os conservadores respeitam a sabedoria de seus ancestrais (essa frase era de Strafford e Hooker, antes de Burke iluminá-la); eles duvidam de alterações em grande escala. Eles consideram a sociedade uma realidade espiritual, possuidora de uma vida eterna, mas também de uma delicada constituição: ela não pode ser desmontada e depois montada, como se fosse uma máquina. “O que é o conservadorismo?” Perguntou uma vez Abraham Lincoln: “Não é a aderência ao antigo e ao experimentado, em contraposição ao recente e ao não testado?” É isso, mas é mais. F.J.C. Hearnshow, em seu Conservatism in England, lista doze princípios dos conservadores, mas é possível resumi-los numa lista mais breve. Penso que há seis canons do pensamento conservador:

1- Crença numa ordem transcendente, ou num corpo de leis naturais, que governa tanto a sociedade quanto a consciência. Problemas políticos, no fundo, são problemas religiosos e morais. Uma racionalidade limitada, o que Coleridge chamava de Entendimento, não pode, em si mesma, satisfazer as necessidades humanas. “Todo Tory é um realista” diz Keith Feiling: “ele sabe que há grandes forças no céu e na terra que nenhuma filosofia humana pode aquilatar ou sondar”. A verdadeira política é a arte de apreender e aplicar a Justiça que deve prevalecer numa comunidade de almas.

2 – Afeição pela variedade proliferante e pelo mistério da existência humana, ao contrário da uniformidade limitante, do igualitarismo e do utilitarismo dos objetivos de muitos sistemas radicais; os conservadores resistem ao que Robert Graves chama de “logicalismo” na sociedade. Esse preconceito tem sido chamado de “o conservadorismo do contentamento” – um sentimento de que a vida vale a pena ser vivida, o que segundo Walter Bagehot é “a própria fonte de um vigoroso conservadorismo”.

3 – Convicção de que a sociedade civilizada requer ordem e classes, contrariamente à noção de uma “sociedade sem classes”. Com razão, os conservadores tem sido freqüentemente chamados de “partido da ordem”. Se as distinções naturais entre os homens forem extintas, as oligarquias preencherão o vazio. Igualdade perante Deus e a igualdade perante os tribunais são reconhecidas pelos conservadores; mas igualdade de condição significa, segundo eles, igualdade na servidão e no fastio.

4 – Certeza de que a liberdade e a propriedade estão intimamente relacionadas: separe a propriedade da liberdade individual e o Leviatã se torna o mestre de todos. Nivelamento econômico, eles afirmam, não é progresso econômico.

5 – Fé na tradição e desconfiança de “sofistas, planejadores e economistas” que reconstruiriam a sociedade a partir de projetos abstratos. Costume, convenção e ordem jurídica tradicional são garantias tanto contra o impulso humano anárquico quanto contra o desejo luxuriante de poder do inovador.

6 – Reconhecimento de que mudança pode não ser reforma salutar: inovação açodada pode ser uma conflagração devoradora, em vez de um caminho para o progresso. A sociedade deve mudar, pois mudanças prudentes são um meio de preservação social; mas o estadista deve levar em conta a Providência em seus cálculos, e a principal virtude do estadista é, de acordo com Platão e Burke, a prudência.

 

Notas:

Tradução de Antônio Emílio Angueth de Araújo

ESCRITO POR EDITORIA MSM | 23 AGOSTO 2006

 

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