O Declínio da Linguagem e o Teatro de Bonecos

Por Phellyp Martins

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A linguagem articulada como a conhecemos hoje causou uma verdadeira revolução na vida do homem sobre a terra, transformando-o em um ser capaz de comunicar suas dores, felicidades, sofrimentos e dilemas.

Essa linguagem passou a desempenhar vários papéis: quantificar a produção, registrar fenômenos naturais, a vida em sociedade, entre outros. Vamos nos deter aqui à função descritiva, que desempenha papel fundamental no desenvolvimento das relações e experiências humanas. De imediato podemos perceber qual a importância dessa interação na vida do indivíduo e posteriormente da sociedade. Os registros falados sobre a vida do homem já mostravam o seu papel secundário na vida cotidiana desde Homero, com seu poema épico, Ilíada, que retratava a vida dos guerreiros valentes que viviam grandes aventuras e que, sendo seres incríveis dotados de força e coragem divinas, também passavam por dilemas morais dos quais o mais reles mortal podia partilhar. O poema contado pelo aedo retratava a realidade das experiências vividas por pessoas reais, dramas existenciais e morais vividos na pólis.

 Também muitas outras obras de grande peso cultural seguiram esse caminho, retratando os dramas e as infelicidades da sua época, o povo e a cultura na qual estavam inseridas. Foi assim com Dante, Goethe, Dostoiévski e Machado de Assis – no que foi a grande apoteose da literatura brasileira, e que antecedeu seu desastroso declínio. Todos grandes mestres em retratar e documentar as experiências concretas de suas épocas, e condensa-las em obras magníficas que têm sido lidas e relidas como se a realidade retratadas por elas estivesse presente aqui, hoje. Obras esplêndidas que expressam a finalidade da atividade de escritor.

 Na contra mão do desenvolvimento da escrita infelizmente encontramos o nosso querido Brasil, que decaiu bruscamente na sua qualidade literária desde a década de 1950. Ao contrário de tudo o que vemos no mundo, em todas as épocas ao longo dos séculos, a literatura brasileira, em suas mais diversas facetas, tem criado um movimento próprio e contrário ao que deveria ser: não retrata experiências e dramas vividos pelo povo brasileiro, antes disso ela dita como esse povo deve viver e quais dramas deve enfrentar em sua vida cotidiana – isso no melhor dos casos, quando o pretenso escritor não escreve apenas aquilo que seu público deseja ler, ou recicla velhos jargões e roteiros com mudanças aqui e acolá.

O exemplo mais gritante de tal fenômeno está nos folhetins, as novelas tão amadas em nosso país e o tipo de literatura mais consumido pela população, que assume uma linguagem teatral antes chegar ao público. Cresci numa casa onde a TV estava ligada durante pelo menos um terço do dia, e as novelas eram o ponto alto da programação, em todos os horários. Com isto pude perceber, conforme a idade ia chegando e com ela o mínimo de senso crítico, que as novelas eram repetições incansáveis dos mesmos enredos, das mesmas tramas com apenas alguma novidade de segunda ordem. Reinavam as intrigas amorosas, as traições, as rixas entre irmãos, e, embora não seja da minha época, o clássico: quem matou Odete Roitman? Uma repetição incansável de dramas rasos, conflitos toscos e nenhum crescimento moral que pudesse ser extraído daquele longo período gasto frente à televisão. Com o tempo ficou ainda mais claro o papel invertido entre realidade e ficção, e aquele velho ditado começou a fazer mais sentido: “a vida imita a arte”.

Logo minhas irmãs queriam vestir-se como as mocinhas, falar como elas, e viver os amores, as festas e as aventuras. A literatura brasileira tomou o papel não de escrivã da realidade – que registra os fatos -, mas de diretora de um grande espetáculo teatral onde todos devem encenar papéis que não são seus, vivendo em universos pobres e pueris, dignos de uma trama inventada por um infante em seus devaneios de pirata.
As produções tratam agora de slogans, como bem diz Olavo de Carvalho, e a única função linguística em voga é a apelativa.

Vivemos todos num teatro de fantoches, onde o fantoche vive um complexo de Pinóquio, achando que é real enquanto não passa de um boneco de madeira dirigido por cordas.

Revisão: lara Oliveira

 Phellyp Martins é aluno de filosofia na UFMA, ex-militante de esquerda e aluno do filósofo Olavo de Carvalho.

 

 

 

 

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